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Stan Lee apresenta: a Revolução Cultural dos anos 1960

Stanley Martin Lieber, o eterno Stan Lee (1922-2018), nos deixou recentemente aos noventa e cinco anos. No entanto, qualquer sentimento de orfandade se esvai diante do seu legado, por meio dos quadrinhos, para a cultura universal. Lee não foi apenas um criador febril de personagens: ele foi um gênio fecundo, profundo e ao mesmo tempo inteligível, que trouxe o drama da existência humana para a Nona Arte, sendo ao mesmo tempo fruto e catalisador da Revolução dos anos 1960.

Lee iniciou sua carreira ainda adolescente na antiga Timely Comics, antecessora da Marvel, mas é nos anos 1960 que ele, prestes a deixar indústria, responde com a criação do Universo Marvel como o conhecemos: a começar pela criação do Quarteto Fantástico em 1961, em parceria com o lendário Jack Kirby. Daí em diante, criou personagens como Thor, Hulk, Homem Aranha, X-Men, Homem de Ferro, Demolidor e, praticamente, recriou o Capitão América.

Embora não chegasse a ser uma novidade a existência de um universo compartilhado no qual os personagens interagissem de forma coerente, vide a DC Comics dos anos 1950 com a Liga da Justiça, a singularidade do trabalho de Lee nos anos 1960 é outra: de um lado, o universo compartilhado ganha cada vez mais contornos de realismo e coerência, do outro, os personagens são antropomórficos, falíveis, humanos demasiadamente humanos.

Eram anos incríveis. Os Estados Unidos convulsionavam com as chagas da Guerra do Vietnã, os afro-americanos lutavam por direitos civis e os jovens saíam às ruas: não lhes bastava mais a sociedade de ternos cinzas, convenções hipócritas e guerras estúpidas, era preciso liberdade, igualdade, paz e amor. Lee era produto de sua época e também artífice e ideólogo, levando a problemática do seu tempo para os quadrinhos e, assim, conseguiu falar com gente de verdade.

Não havia espaço para tipos ideais, ao contrário: Peter Parker, o Homem Aranha, era um jovem com pouca grana e órfão; os X-Men eram parte de uma minoria incompreendida e perseguida; o próprio Capitão América ressurge como um veterano de guerra deslocado no tempo; mesmo um deus como o Thor estava na terra para aprender uma lição de humildade.

Como já dissemos aqui na boa companhia de Hermínio Porto, citando as origens do Pantera Negra, o primeiro super-herói negro dos quadrinhos americanos: uma verdadeira ousadia em temos de luta por direitos civis, sobretudo pelo Pantera não ser qualquer tipo de estereótipo.

O que Lee fez, e depois ficou ainda conhecido com as versões cinematográficas de suas personagens, foi trazer o que há de mais universal no drama humano, as paixões, nossas falhas e contradições, para uma arena que, até então, se baseava em arquétipos de força, beleza e inteligência.  No fim, Lee nos fez voltar, realmente, aos clássicos, para os quais nem os deuses eram desprovidos de paixões.

Esse giro conceitual na percepção do super-herói é o puro espírito de uma época na qual a humanidade, incluso os americanos, ousaram pensar, agir e viver diferente do triste fado histórico. Isso reverbera até hoje, quando as versões repaginadas das criações de Lee ganham as telas de cinema do mundo inteiro. É o eterno retorno da revolução cultural dos anos 1960. E Stan Lee com sua simplicidade virtuosa foi o Shakespeare de sua época.

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