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Não existem soluções “técnicas” ou “apolíticas” para as contradições do capitalismo

Ruy Braga comenta a importância do livro “Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico”, escrito pelo marxista Edemilson Paraná, num país que naturalizou a crise econômica e aprofundou ainda mais a financeirização neoliberal.

Por Ruy Braga, professor da USP

A crítica da economia contemporânea transformou-se em uma arte cada dia mais difícil. Novos fenômenos econômicos emergem substituindo aqueles que, há pouco tempo, pareciam portar soluções definitivas para fenômenos complexos. Muitas vezes, os analistas naufragam em meio a tantas novidades enlaçando novas tecnologias, reconfigurações do mercado e alterações políticas repentinas. O ritmo da crise contemporânea desafia a ciência social a decifrar promessas utópicas, assim como exige que nos afastemos dos modismos teóricos a fim de pisarmos em terreno seguro no meio do turbilhão do presente.

O livro Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico demonstra que é possível capturar o sentido do novo por meio de um olhar balizado pelo melhor pensamento clássico. Edemilson Paraná propôs-se uma tarefa realmente difícil: decifrar o atual ciclo de operação da finança digitalizada a partir da análise do Bitcoin. Para tanto, focou nos nexos entre o Estado, o dinheiro e o poder social a partir de uma abordagem interdisciplinar e multidimensional cuja força heurística devassou a íntima relação existente entre um neoliberalismo triunfante e o fenômeno ambíguo da utopia tecnocrática do dinheiro “apolítico”. Para poder dar conta da singularidade desse fenômeno típico da atual etapa de financeirização capitalista, ele recorreu à teoria marxista do dinheiro, resgatando debates fundamentais há tempos negligenciados por economistas e sociólogos críticos.

O notável esforço intelectual de Edemilson Paraná iluminou o movimento imanente das criptomoedas, em especial, o Bitcoin, inserindo-o em um contexto social e histórico cujo modo de reprodução crítico tem semeado soluções autoritárias em diferentes partes do globo. Nesse sentido, ele argumentou muito corretamente que o atual ciclo de operação da finança digitalizada, a despeito da promessa, não é capaz de configurar uma alternativa segura para o quadro de instabilidade monetária que assola o mercado mundial. Ao contrário, sua dinâmica imanente aponta para uma frustração generalizada com o baixo volume e alcance de circulação, a grande incerteza frente ao dinheiro estatal e a acentuada concentração de poder político e econômico entre os usuários de criptomoedas. Trata-se de mais uma demonstração de que não existem soluções “técnicas” ou “apolíticas” para as contradições da economia capitalista.

No âmbito teórico, este livro constrói uma análise rigorosa da relação entre Estado, sociedade e poder econômico de modo a problematizar o estatuto do dinheiro na atual fase do capitalismo contemporâneo. Na realidade, o caso do Bitcoin serve como ponto de ancoragem de um estilo interpretativo globalizante e aberto às indagações sobre o futuro do capitalismo. Além disso, ao esforçar-se para superar a divisão do trabalho intelectual entre a economia e a sociologia, Edemilson Paraná revelou a mútua dependência de domínios sociais conexos, enriquecendo tanto o campo de estudos da economia monetária quanto da sociologia do dinheiro.

Em síntese, estamos diante de um livro capaz de interessar tanto àqueles engajados em compreender o novo fenômeno das criptomoedas, quanto àqueles empenhados em refletir sobre as transformações mais amplas pelas quais tem passado o dinheiro na economia contemporânea. Analista refinado e crítico social experiente, Edemilson Paraná nos brinda com um dos livros mais instigantes já publicados no Brasil sobre as metamorfoses do dinheiro em uma sociedade que, aparentemente, naturalizou a crise econômica. Assim, ele nos relembra que a luta por uma economia mais justa é inseparável da crítica ao fetichismo do dinheiro.

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