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A revolução é o freio de emergência – atualidade político-ecológica de Walter Benjamin

O ensaísta, filósofo e sociólogo marxista judeu, Walter Benjamin, nasceu neste dia em 1892. Para comemorar seu aniversário, liberamos um capítulo do livro, escrito pelo ecossocialista Michael Löwy, que trabalha as principais teses do autor . A obra, lançada recentemente, está com 20% de desconto até final do mês!

Por Michael Lowy, autor do livro “A revolução é o freio de emergência – Ensaios sobre Walter Benjamin

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Walter Benjamin foi um dos raros marxistas a propor, antes de 1945, uma crítica radical ao conceito de “exploração da natureza” e sua relação “criminosa” com a civilização capitalista. Desde 1928, na obra Rua de mão única, Benjamin denuncia a ideia de dominação da natureza como um discurso “imperialista” e propõe uma nova definição da técnica como “domínio das relações entre natureza e humanidade”.

Como em escritos dos anos 1930, dos quais falaremos adiante, Benjamin se refere às práticas das culturas pré-modernas para criticar a “ganância” destrutiva da sociedade burguesa em sua relação com a natureza. “Dos mais antigos usos dos povos parece vir a nós como uma advertência: na aceitação daquilo que recebemos tão ricamente da natureza, guarda-nos do gesto da avidez”.

Deveríamos “mostrar um profundo respeito” pela “mãe natureza” [terre nourricière]. Se um dia “a sociedade, sob o efeito da desgraça e da avidez, estiver desnaturadaa ponto de somente receber os dons da natureza pelo roubo […] seu solo empobrecerá e a terra trará más colheitas”. Parece que esse dia chegou…

No mesmo Rua de mão única, encontramos o título “Aviso de incêndio” e uma premonição histórica das ameaças do progresso, intimamente associadas ao desenvolvimento tecnológico impulsionado pelo capital: se a derrubada da burguesia pelo proletariado “não estiver efetivada até um momento quase calculável de evolução econômica e técnica (a inflação e a guerra química o assinalam), tudo estará perdido. Antes que a centelha alcance a dinamite, é preciso que o pavio que queima seja cortado”.

Benjamin se enganou no que se refere à inflação, mas não a respeito da guerra; todavia não poderia prever que a arma “química”, isto é, os gases letais, não seria utilizada nos campos de batalha como na Primeira Guerra Mundial, mas sim para o extermínio industrial de judeus e ciganos.

Na contramão do marxismo evolucionista vulgar, Benjamin não concebe a revolução como resultado “natural” ou “inevitável” do progresso técnico e econômico (ou da “contradição entre forças e relações de produção”), mas como interrupção de uma evolução histórica que conduz à catástrofe. A alegoria da revolução como “freio de emergência” já se encontra sugerida nessa passagem.

É exatamente porque percebe esse perigo catastrófico que Benjamin reivindica, em um artigo sobre o Surrealismo (1929), o pessimismo – um pessimismo revolucionário que nada tem a ver com a resignação fatalista e menos ainda com o Kultur pessimismus alemão, conservador, reacionário e pré-fascista (como o de Carl Schmitt, Oswald Spengler ou Moeller van der Bruck). 

Aqui, o pessimismo está a serviço da emancipação das classes oprimidas. Sua preocupação não é o “declínio” das elites ou da nação, mas a ameaça que o progresso técnico e econômico promovido pelo capitalismo representa para a humanidade.

Nesse ensaio de 1929, a filosofia pessimista da história de Benjamin manifesta-se de modo particularmente agudo em sua visão do futuro europeu: “pessimismo integral. Sem exceção. Desconfiança acerca do destino da literatura, desconfiança acerca do destino da liberdade, desconfiança acerca do destino da humanidade europeia e, principalmente, desconfiança, desconfiança e desconfiança com relação a qualquer forma de entendimento mútuo: entre as classes, entre os povos, entre os indivíduos. E confiança ilimitada apenas na I.G. Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Força Aérea [Luftwaffe].”

Esse olhar lúcido e crítico permite a Benjamin perceber – intuitivamente, mas com uma estranha acuidade – as catástrofes que atingiam a Europa, perfeitamente reunidas na expressão irônica “confiança ilimitada”. E nem mesmo ele, o mais pessimista de todos, poderia prever a destruição que a Luftwaffe iria impor às cidades e às populações civis europeias.

E menos ainda que, pouco mais de uma década depois, a I.G. Farben ficaria conhecida pela produção do gás Zyklon B, utilizado para “racionalizar” o genocídio, ou que suas fábricas utilizariam, aos milhares, a mão de obra dos prisioneiros dos campos de concentração. Contudo, único entre todos os pensadores e dirigentes marxistas desses anos, Benjamin teve a premonição dos monstruosos desastres que a civilização industrial-burguesa em crise poderia produzir. 

Embora rejeite as doutrinas do progresso inevitável, Benjamin propõe uma alternativa radical ao desastre iminente: a utopia revolucionária. As utopias, os sonhos de um futuro diferente, escreve ele em “Paris, capital do século XIX” (1935), nascem em íntima associação com os elementos de uma história primeva (Urgechichte), “isto é, uma sociedade sem classes”, primitiva. Depositadas no inconsciente coletivo, essas experiências do passado “em interação recíproca com o novo, fazem nascer a utopia”.

Em um ensaio de 1935 sobre Johann Jakob Bachofen, antropólogo suíço do século XIX conhecido por suas pesquisas sobre o matriarcado, Benjamin desenvolve mais concretamente200 essa referência à pré-história. Se a obra de Bachofen fascinou tanto os marxistas (notadamente Friedrich Engels) e os anarquistas (como Élisée Reclus), é por sua “evocação de uma sociedade comunista na aurora da história”, uma sociedade sem classes, democrática e igualitária, com formas de comunismo primitivo que significavam uma verdadeira “subversão do conceito de autoridade”.

As sociedades arcaicas também são caracterizadas por uma maior harmonia entre os seres humanos e a natureza. Em seu livro inacabado sobre as arcadas parisienses, Passagens, Benjamin se opõe novamente e de modo mais enérgico às práticas de “dominação” e “exploração” da natureza pelas sociedades modernas. Uma vez mais, elogia Bachofen por ter mostrado que a “concepção criminosa (mörderisch) de exploração da natureza”, concepção capitalista/moderna predominante a partir do século XIX, inexistia nas sociedades matriarcais do passado, nas quais a natureza era percebida como uma mãe generosa (schenkendeMutter).

Não se trata, para Benjamin – nem para Engels ou Élisée Reclus, aliás – de voltar ao passado pré-histórico, mas de propor a perspectiva de uma nova harmonia entre a sociedade e o ambiente natural. A seus olhos, o pensador que melhor encarna essa promessa de reconciliação futura é o socialista utópico Charles Fourier.

Somente em uma sociedade socialista, na qual a produção deixará de se fundar na exploração do trabalho humano, “o trabalho se despe de seu caráter de exploração da natureza pelo homem”. Ele seguirá o modelo do jogo infantil, que em Fourier é a base do “trabalho apaixonado” dos “harmonianos”: “Um trabalho animado pelo jogo não visa à produção de valores, e sim ao melhoramento da natureza. […] Numa terra cultivada a partir dessa imagem […] a ação iria de mãos dadas com o sonho”.

Nas teses Sobre o conceito de história, Benjamin volta mais uma vez a Fourier, esse utopista visionário que sonhava com “uma forma de trabalho que, longe de explorar a natureza, é capaz de dar à luz criações possíveis que dormitam em seu seio” – devaneios cuja expressão poética são suas “fantásticas fabulações”, plenas de um “surpreendente bom senso”.

Isso não quer dizer que Benjamin pretenda substituir o marxismo pelo socialismo utópico: ele considera Fourier um complemento a Marx e, na Tese XI, trata da discordância ente as observações de Marx sobre a natureza do trabalho e o conformismo do programa social-democrata de Gotha. De acordo com o positivismo social-democrata, representado por esse programa, e com os escritos do ideólogo Joseph Dietzgen, “o trabalho visa à exploração da natureza, exploração que é contraposta, com ingênua satisfação, à exploração do proletariado”.

Trata-se, nesse tipo de ideologia, de uma “concepção da natureza que rompe contundentemente com as utopias socialistas do pré-março de 1848”, em uma evidente alusão a Fourier. Pior ainda, por seu culto ao progresso técnico e seu desprezo à natureza – “gratuitamente”, segundo Dietzgen –, esse discurso positivista “já mostra os traços tecnocráticos que serão encontrados mais tarde no fascismo”.

Encontramos nas teses de 1940 uma correspondência – no sentido que Baudelaire dá a esse termo em seu poema “Correspondências” – entre teologia e política: entre o paraíso perdido do qual fomos afastados pela tempestade que chamamos de “progresso” e a sociedade sem classes na aurora da história: entre a era messiânica do futuro e a nova sociedade sem classes do socialismo. 

Como interromper a catástrofe permanente, o acumulo de ruínas “até o céu” que resulta do “progresso” (Tese IX)? Uma vez mais, a resposta de Benjamin é religiosa e profana: isso é tarefa do messias, cujo “correspondente” profano não é outro senão a revolução. A interrupção messiânica/revolucionária do progresso é a resposta de Benjamin às ameaças que a continuidade da tempestade maligna e a iminência de novas catástrofes fazem contra a humanidade. Estamos em 1940, a alguns meses do início da Solução Final.

Nas teses Sobre o conceito de história, Benjamin se refere várias vezes a Marx, mas num ponto importante ele se distancia criticamente do autor d’O Capital: “Marx disse que as revoluções são a locomotiva da história mundial. Talvez as coisas se apresentem de outra maneira. Pode ser que as revoluções sejam o ato pelo qual a humanidade que viaja nesse trem puxa o freio de emergência”.

Implicitamente, a imagem sugere que se a humanidade permitir que trem siga seu caminho – já traçado pela estrutura de aço dos trilhos – e se nada detiver sua progressão, nós nos precipitaremos diretamente em direção ao desastre ou ao abismo.

Entretanto, nem mesmo Walter Benjamin, o mais pessimista dos marxistas, poderia prever a que ponto o processo de exploração e dominação capitalista da natureza – e sua cópia burocrática nos países do Leste antes da queda do Muro de Berlim – conduziria a consequências desastrosas para toda a humanidade.

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Alguns comentários sobre a atualidade político-ecológica das reflexões de Benjamin.

Neste começo do século XXI, assistimos a um “progresso” cada vez mais acelerado do trem da civilização capitalista na direção do abismo, um abismo denominado “catástrofe ecológica” e que tem, nas mudanças climáticas, sua expressão mais dramática. É importante considerar a aceleração crescente do trem, a velocidade vertiginosa com a qual se aproxima do desastre.

De fato, a catástrofe já começou e nós nos encontramos numa corrida contra o tempo para tentar impedir, conter e parar essa fuga futura, cujo resultado será a elevação da temperatura do planeta – e entre outras consequências, a desertificação de territórios imensos, a elevação do nível do ar, o desaparecimento de grandes cidades litorâneas: Veneza, Amsterdam, Hong Kong, Rio de Janeiro.

Uma revolução é necessária, escreveu Benjamin, para frear essa corrida. Ban Ki-Moon, secretário das Nações Unidas, que não tem nada de revolucionário, fez o seguinte diagnóstico no jornal Le Monde em 5 de setembro de 2009: “nós”, referindo-se, sem dúvida, aos governantes do planeta, “enfiamos o pé no acelerador e nos precipitamos para o abismo”.

Walter Benjamin escolheu a metáfora da “tempestade” para representar o progresso destrutivo que acumula catástrofes. O mesmo termo está no título do último livro de James Hansen, climatologista da Nasa e um dos maiores especialistas em mudança climática no mundo: Tempestade dos meus netos: mudanças climáticas e as chances de salvar a humanidade. Hansen também não é um revolucionário, mas a análise que faz da “tempestade” – que para ele, como para Benjamin, é a imagem de algo bem mais ameaçador – é de uma lucidez impressionante. 

A humanidade conseguirá acionar o freio revolucionário? Cada geração, escreve Benjamin nas Teses de 1940, recebeu uma “frágil força messiânica”: a nossa também. Se não a utilizarmos “antes de um momento quase calculável da evolução econômica e social, tudo estará perdido” – para usarmos a fórmula do “aviso de incêndio” de Benjamin em 1928.

Com raras exceções, temos pouco a esperar dos governantes do planeta. A única esperança são os movimentos sociais reais, entre os quais um dos mais importantes hoje é o das comunidades indígenas, em particular na América Latina. Após o fracasso da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima em Copenhague, reuniu-se em 2010, em Cochabamba na Bolívia, a Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas e Direitos da Mãe Terra (Pachamama), convocada pelo presidente Evo Morales, que se solidarizou com os protestos de rua na capital dinamarquesa.

As resoluções adotadas em Cochabamba correspondem, quase termo a termo, ao argumento de Benjamin sobre o tratamento criminoso que a civilização ocidental capitalista dá à natureza – enquanto as comunidades tradicionais a consideram uma “mãe generosa”.

Walter Benjamin foi um profeta. Não daqueles que dizem prever o futuro, como o oráculo grego, mas no sentido dado pelo Antigo Testamento: aquele que chama a atenção do povo para as ameaças futuras. Suas previsões são condicionais: “é isso o que acontecerá, a menos que…”, “exceto se…”. Nenhuma fatalidade: o futuro permanece aberto. Como afirma a Tese XVIII Sobre o conceito de história, cada segundo é a porta estreita pela qual pode vir a salvação. 

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