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Chegou o novo Marx Selvagem, (quase) cinco anos depois

Marx Selvagem, de Jean Tible, ganha nova edição pela Autonomia Literária. O Brasil em que o Marx Selvagem retorna, no entanto, é outro, mais sombrio e perigoso, mas talvez por isso a obra faça cada vez mais sentido.

Como bem lembrado por Jean Tible, na sua nota à nova edição do Marx Selvagem, a obra retorna neste ano em que comemoramos os 200 anos de nascimento de Karl Marx, mas também o centenário da revolução alemã e os 50 anos da revolução mundial de 1968 — não haveria ano melhor, ou mais cabalístico, para apresentarmos uma nova edição do livro, para o fazer retornar em uma concepção virtuosa do que dizia Nietzsche, uma eterna (re)volta.

Produto da tese de doutorado de Tible concluído em 2012, Marx Selvagem, é uma obra luminosa e vibrante, lançada como livro pouco depois de junho de 2013, sendo um rebento de um evento que, em grande medida, ele anteviu. Filho de uma época na qual a Nova República já dava sinais de esgotamento, o Marx Selvagem não só predisse essa tendência como, também, anteviu as novas tendências, sons, cores e composições que poderiam escapar ao encerramento desse ciclo e desenhar um novo, propondo conceitos, decifrando enigmas.

O experimento de Jean Tible já ali acusava os desafios e risco desse processo sem, no entanto, se submeter à negatividade obsessiva nem a um otimismo naîf. Em vez de negar as mudanças, mesmo aquelas mais assustadoras, construir um novo mundo e estar aberto para encontrar novos mundos e novas possibilidades, fiel ao espírito do bicentenário de Marx.

Clique aqui: nova edição de Marx Selvagem acaba de chegar no ano do bicentenário de Marx e no cinquentenário de 1968.

Se o Marx Selvagem expressou esse momento, igualmente realizando sua potência e virtude daqueles tempos, por outro lado, ele se materializa também como “aposta política” — como bem aponta Peter Pal Pelbart — e já ali acenava para certas tensões cuja resolução eram inadiáveis e incontornáveis: os problemas do modelo econômico “desenvolvimentista” em variadas dimensões, não só da qualidade da nossa modernização, mas suspendendo a ideia da modernidade como qualidade em si mesma.

Estendendo um fio vermelho entre dois mundos, o dos antropólogos, etnólogos e indigenistas que experimentam, prática e teoricamente, a possibilidade de alternativas ao nosso modo de vida, e o outro, dos revolucionários, militantes e pensadores radicais que dão seus corpos em testemunho para mudar a sorte triste deste nosso mundo.

Na sua obra, Tible em vez de uma exclusão, ou buscar novos mundos ou mudar o nosso mundo ao estilo do velho “ou isso ou aquilo”, vemos um traçado outro, esquizo ao estilo de Deleuze e Guattari, pelo qual a disjunção é inclusiva: buscar criar ou encontrar novos mundos e/ou mudar este nosso mundo — sem exclusões.

Se a noção de feitiço/fetiche serve tanto a crítica radical de Marx quanto para a reflexão imanentista de Kopenawa e de seu povo sobre a infernal máquina capitalista, não é impossível haver uma alternativa comum entre essas perspectivas para não apenas se derrotar isso como, ainda, se constituir algo novo.

Igualmente, quando coteja os problemas, impasses e divergências entre os variados ramos do movimento socialista — de onde irão vir cismas que darão origem a clivagens como “social-democratas”, “comunistas” e “anarquistas” –, Tible acena para um comum que não é a unificação, mas a possibilidade de haver um locus, à la Negri, no qual as diferenças possam coexistir enquanto diferenças, gerando o novo, inclusive e sobretudo no plano das lutas.

Tible não se contentou em conduzir um experimento teórico de lutas que quisesse transformar — radicalmente — o nosso mundo ou constituir novos mundos, ele resolveu apostar nos dois, que é preciso fazer as duas coisas, sem exclusão entre elas, posto que isso não é nem necessário nem é possível.

Ainda, Tible não precisou vergar Marx a uma espécie de personagem conceitual, mas seguiu caminho oposto, fazendo uma rigorosa leitura do pensador para apontar que o Marx sisudo, da modernidade e do Estado, nunca, em verdade existiu: e se houve algum engano, certamente foi dos ortodoxos que, como tais, sempre tentarão ser mais realistas do que a que realidade — porque, no fundo, para eles a realidade precisa ser sempre menos do que ela realmente é.

No Brasil de 2012-2013, a ideia de um Marx selvagem apontava para um curiosa junção de ideias, uma doce quimera que se faria possível no horizonte de um certo (sur)realismo mágico latino-americano, porém no Brasil de 2018, o contraste que ele gera é outro e ainda mais radical: é o efeito cromático de um vermelho rompendo com as molduras do detestável quadro cinza do pós-golpe, na qual o globo terrestre se vê cheio de Trumps e Temers — para não dizer dos Dutertes ou de eventuais Bolsonaros.

O fato é que hoje, mais do que há cinco anos, o Marx Selvagem se faz mais urgente, e merece ser mais lido (ou relido) hoje: porque seu texto, já ali, sem abrir mão de um incorrigível otimismo e uma inegável luminosidade, não deixava de encarar itens centrais para a luta, desde a questão da organização e dos seus desafios práticos dos mais complexos, e dos mais duros.

É por essas razões que a Autonomia Literária traz às livrarias esta nova edição repaginada e revista da obra de Tible, um jovem intelectual, militante, professor, autor-ator como nas sábias palavras de Zé Celso em seu magnífico (novo) prefácio à esta edição.

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