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A história perdida dos antifas, o popular movimento antifascista

73 anos após triunfar sob o fim do regime nazista, analisamos um movimento da Alemanha no pós-guerra que uniu socialistas, comunistas e sociais-democratas para combater o ressurgimento da extrema-direita populista

Por Loren Balhorn, Jacobin Magazine | Tradução Guilherme Ziggy

As origens da palavra “antifa” – abreviação antifascista de ativismo de rua de ação direta, descentralizado, associado à sua própria estética e subcultura – pode ser oculta para a maioria dos militantes hoje em dia. Mesmo na Alemanha, poucos sabem alguma coisa sobre as raízes populares de resistência antifascista que cunharam o termo.

O curto e inspirador legado político do movimento se provou muito desconfortável para ambos Estados alemães durante a Guerra Fria, sendo ignorado nas narrativas escolares e pela a esquerda.

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Direto das ruínas

Em 1945, o Terceiro Reich de Hitler estava fisicamente destruído e politicamente exausto. O básico da sociedade havia deixado de funcionar em muitas áreas e, à medida em que o poder nazista esmorecia, os apoiadores do regime, particularmente nas classes média e alta, perceberam que a “vitória final” de Hitler era uma fantasia.

Na esquerda, muitos comunistas e sociais-democratas haviam sido assassinados pelos nazistas ou morreram durante a guerra que se seguiu. A inimaginável destruição humana e material causada pelo regime nazista matou milhões e virou a sociedade alemã de cabeça para baixo, dizimando o movimento operário e assassinando parte da população judia alemã. Milhares de pessoas que apoiaram ou pelo menos concordaram com o regime – incluindo muitos trabalhadores e até alguns ex-socialistas – agora enfrentavam a perspectiva de um novo começo em terreno político desconhecido.

No entanto, apesar do fracasso em impedir Hitler em 1933 do verdadeiro desmantelamento político nos anos subsequentes, o movimento operário socialista na Alemanha e suas tradições decididamente progressistas foram capazes de sobreviver a Hitler nas fábricas de suas cidades industriais; esses fragmentos começaram a ser recolhidos assim que a atividade política aberta se tornou novamente possível. Como o historiador Gareth Dale descreve:

“De todos os setores da população, foram os trabalhadores industriais das grandes cidades que mostraram uma maior imunidade ao nazismo. Muitos sindicalistas e socialistas foram capazes de manter suas tradições e crenças, pelo menos de alguma forma, durante o período nazista. Uma corajosa minoria, incluindo cerca de 150 mil comunistas, participou da resistência ilegal. Camadas mais largas [de trabalhadores] evitaram o perigo, mas foram capazes de manter os valores e memórias do movimento operário vivos em seus grupos de amigos, locais de trabalho e conjuntos habitacionais.”

Esses grupos, oriundos dos já mencionados conjuntos habitacionais, eram geralmente chamados de “Antifaschistische Ausschüsse”, ou seja, “Comitês Antifascistas” ou o agora famoso “Antifaschistische Aktion” — “Antifa” na forma abreviada. Eles usaram os slogans e as orientações estratégicas da Frente Única de antes da guerra, adotando a palavra “Antifa” ainda da experiência de 1932, quando uma última tentativa de aliança entre os trabalhadores comunistas e sociais-democratas foi realizada. O icônico símbolo da aliança foi idealizado pelos designers Max Kleison e Max Gebhard, membros da Associação de Artistas Visuais Revolucionários, tornando-se a partir de então, um dos símbolos mais conhecidos na esquerda contemporânea.

Após a guerra, os grupos Antifas variavam de tamanho e composição por todo o antigo Reich, agora dividido em quatro zonas de ocupação, desenvolvendo interações e atividades com cada poder local. Emergindo aparentemente da noite para o dia em dezenas de cidades, a maioria se formou imediatamente após as forças Aliadas chegarem, e alguns grupos, como o de Wuppertal “se libertaram” em batalhas de rua contra os partidários de Hitler, antes mesmo que os Aliados pudessem chegar.

Fundamentalmente, esses grupos não eram exemplos de solidariedade espontânea entre sobreviventes traumatizados pela guerra, mas o resultado da reativação das redes pré-guerra, pelos veteranos do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e do Partido Comunista da Alemanha (KPD). Albrecht Lein relata que o núcleo da antifa de Braunschweig era composto por membros mais velhos do KPD e do SPD em seus fronts. Também havia envolvimento de organizações de trabalhadores católicos e outras forças políticas.

Os grupos antifas enfileiravam-se entre as centenas e milhares de membros na maioria das cidades. A falta de envolvimento de jovens pode ser atribuída aos doze anos de educação e socialização nazista, fato que aniquilou a atitude proletária-socialista, antes muito comum, na maioria dos jovens alemães. Embora as necessidades materiais da guerra e da reconstrução incorporassem as mulheres à vida econômica de novas maneiras, a predominância masculina característica da sociedade alemã também se refletiu no movimento Antifa, que se construía amplamente (mas não inteiramente) de homens.

Os antifas tendiam a direcionar seu foco para uma combinação entre caçar criminosos nazistas e partidários nazistas clandestinos (os chamados “lobisomens”) e preocupações práticas que afetavam a população em geral. A antifa de Braunschweig, por exemplo, imprimiu um programa de doze pontos, exigindo, entre outros, a remoção dos nazistas de todos os órgãos administrativos e sua substituição imediata por “antifascistas competentes”, liquidação de ativos nazistas para prover vítimas de guerra, leis de emergência para processar fascistas locais e o restabelecimento do serviço público de saúde. Típico de uma organização liderada por socialistas e, portanto, ciente da necessidade de uma mídia impressa como mídia organizadora, o décimo segundo e último ponto consistia em um “jornal diário”.

Embora os registros sobreviventes indiquem que muitos grupos antifas eram dominados pelos comunista do KPD, o clima político nos primeiros meses estava distante do aventureirismo do “Terceiro Período” no final da República de Weimar. Os antifas locais foram motivados pelo desejo de aprender com os erros de 1933 e construir um movimento sindical não sectário que superasse as divisões internas. Isso foi impulsionado por um senso generalizado de que os horrores do nazismo haviam sido resultado da instabilidade e desigualdade do capitalismo e que um novo sistema econômico igualitário era necessário para a ordem do pós-guerra.

As demandas por nacionalização da indústria e outras políticas de esquerda foram generalizadas. Até mesmo o casamento forçado entre o KPD e o SPD no Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) na zona soviética baseou-se nesse sentimento e recrutou muitos antigos oposicionistas no primeiro ano. Na Hamburgo ocupada pelos ingleses, um comitê conjunto de ação KPD-SPD se reuniu em julho de 1945 com amplo apoio de seus respectivos membros para declarar:

“A vontade de se fundir em um poderoso partido político vive nos corações dos milhões de partidários dos aguerridos partidos operários alemães, como resultado mais significativo de seu sofrimento compartilhado. Este desejo está profundamente gravado em todos os sobreviventes dos campos de concentração, prisões e instituições da Gestapo.”

O restante do documento consistia em demandas práticas em torno de unir o fragmentado movimento operário de Hamburgo.

Os antifas desfrutaram de vários sucessos, dependendo da composição local de cada movimento e da quantidade de liberdade permitida a eles por cada uma das potências ocupantes. Apesar de se formarem fora do governo dos Aliados e impulsionarem políticas populares de desnazificação contra forças de ocupação que buscavam se reconciliar com velhas autoridades, eles não estavam em posição de contestar a hegemonia dos Aliados e na melhor das hipóteses, representavam minorias militantes.

A cidade industrial de Stuttgart, por exemplo, teve a sorte de se envolver em manobras territoriais entre os Estados Unidos e a França, que ocuparam a cidade preventivamente. Desejosos em evitar distúrbios civis e, assim, dar aos americanos um pretexto para retomar o controle, autoridades francesas permitiram os antifas de Stuttgart uma abertura considerável para desmantelar a Frente Trabalhista Alemã (DAF) da Era nazista, reconstruindo a organização política no chão de fábrica e organizando a população em alianças partidárias antifascistas.

Reunião antifascista no campo de concentração de Buchenwald, 1945.

Stuttgart é também notável pela presença do Partido Comunista (Oposição), conhecido como KPO. Orbitando em torno dos ex-líderes do KPD, August Thalheimer e Heinrich Brandler, o grupo recrutou um grande número de militantes e funcionários do KPD nas fábricas após a virada ultra-esquerdista do partido em 1929. A defesa do KPO por uma frente antinazista de todas as organizações operárias no período que antecedeu 1933, permitiu-lhes consolidar uma base pequena, mas considerável, de quadros comunistas experientes, repelidos pela stalinização do seu partido. 

Embora nunca tenha sido uma organização de massas e apenas uma sombra da sua antiga potência após a guerra, o que restou do KPO teve influência decisiva sobre o sindicato dos metalúrgicos de Stuttgart por vários anos e foi capaz de desempenhar um papel ativo nas fábricas. Essas atividades forneceram à cidade um núcleo de militantes capazes de entender, por experiência, a necessidade de unir os trabalhadores em uma base interpartidária em torno das demandas sociais básicas.

Como em qualquer outro lugar na Alemanha, o movimento antifa de Stuttgart logo foi neutralizado e desviado de volta para as antigas divisões entre o SPD e o KPD, mas a tradição rebelde da cidade e a propensão à unidade em ação ressurgiriam em 1948, quando uma revolta geral por aumentos drásticos de preços desencadeou uma greve geral que envolveu 79% da força de trabalho e se espalhou por várias outras localidades.

Sobredeterminados

O movimento antifa enfrentou uma situação quase impossível em 1945. O país estava em ruínas em todos os sentidos imagináveis e passava por uma fase de destruição, brutalidade e assassinato arbitrário sem precedentes.

A situação da antifa foi em geral “sobredeterminada”, no sentido de que forças históricas além do seu controle acabariam selando seu destino. Esses socialistas e antifascistas, embora totalizassem dezenas de milhares em todo o país, não eram vistos como a força que poderia fornecer uma alternativa política plausível para enfrentar a Guerra Fria.

A Alemanha, em 1945, estava prestes a se tornar palco do mais longo confronto geopolítico da história moderna e não havia como, com o movimento socialista fragmentado e destruído, os antifas influenciarem o processo político de maneira significativa. No entanto, declarações e documentos da época revelam a determinação de milhares de antifas e socialistas, conscientes da natureza sem precedentes de seu momento histórico, buscando apresentar uma perspectiva política para o que havia restado da classe trabalhadora do país.

Embora seus membros fossem comparativamente e lamentavelmente poucos, dada a antiga glória do movimento, sua existência refuta a noção de que a esquerda alemã antes da guerra foi inteiramente destruída pelo nazismo. Hitler certamente quebrou a espinha dorsal do socialismo alemão, mas a Alemanha Ocidental do pós-guerra, acompanhada de uma paranoia anticomunista, finalmente enterraria o que havia restado das tradições radicais no país antes da guerra.

Albrecht Lein conta como as condições incrivelmente difíceis enfrentada pelos antifas também restringiram necessariamente suas perspectivas políticas. Embora atraíssem milhares de socialistas e logo fossem apoiados por comunistas e outros prisioneiros políticos que retornaram dos campos de concentração, brevemente se tornando a força majoritária em cidades como Braunschweig, os antifas não conseguiram oferecer um fuga política para a miséria social do país.

Lein argumenta que o fracasso do movimento operário em derrotar Hitler e o fato da Alemanha ter exigido sua libertação, expulsou os antifascistas com uma política amplamente reativa, perseguindo vigorosamente os ex-oficiais nazistas e expurgando da sociedade os chamados “colaboradores”, ao mesmo tempo em que deixava de lado a construção de uma “nova Alemanha” para além do fascismo e das maquinações da Guerra Fria.

Após os comunistas dissolverem o “Comitê Nacional por uma Alemanha Livre” (NKFD) nas semanas posteriores à guerra, grupos clandestinos da resistência nazista começaram a se auto-denominar “Movimento por uma Alemanha Livre.” Lein alega que essa circunstância simbolizava a trajetória política geral na Alemanha à época:

“Além das notáveis exceções de Leipzig, Berlim e Munique, os movimentos antifascistas descreveram-se como ‘organizações de luta contra o fascismo’ e não como ‘Comitês por uma Alemanha Livre’”.

O fracasso dos alemães em se engajarem na resistência popular contra Hitler, mesmo na segunda metade da guerra, desmoralizou compreensivelmente a esquerda e abalou sua fé na capacidade das massas ­­– um traço que o historiador Martin Sabrow também atribui à casta de funcionários comunistas operando sob a tutela soviética no Leste.

Nas zonas francesa, britânica e norte-americana, a antifa começou a retroceder perto do final do verão de 1945, marginalizada pelas proibições aliadas à organização política e às divisões emergentes dentro do próprio movimento. Os sociais-democratas, sob a liderança de Kurt Schumacher, se aliaram aos ocupantes ocidentais e logo retornaram à linha anticomunista de antes da guerra, decretando antes do final do ano que a filiação ao SPD era incompatível com a participação no movimento antifascista.

Em Stuttgart, a antifa e o que havia restado da antiga burocracia sindical lutaram entre si por influência desde o começo. A velha liderança da ADGB, a federação sindical central da Alemanha pré-guerra, procurou restabelecer relações de emprego formalizadas nas zonas ocupadas, o que pelo menos significaria um retorno à normalidade da classe trabalhadora alemã. No entanto, isso contrariava a abordagem dos antifas, que cultivavam fortes laços com os sindicatos de esquerda e com os comitês de fábrica e exigiam a nacionalização e o controle operário da indústria. Essas demandas acabaram se provando irrealistas em uma economia destruída e ocupada por poderosos exércitos estrangeiros.

A perspectiva de estabilidade e um certo grau de recuperação econômica sob a batuta do SPD simplesmente se mostraram mais atraentes para os trabalhadores, forçados a escolher entre isso e a angustiante, porém honrosa, luta proposta pela antifa.

Particularmente, os antifas foram ainda mais prejudicados pelas decisões dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, que buscavam cooperar com o que restava do regime nazista abaixo de seus níveis executivos. Os antifascistas, ao tentarem prender líderes nazistas locais ou expulsá-los das burocracias municipais, eram muitas vezes detidos por autoridades que preferiam integrar funcionários do antigo Estado em novas instituições “democráticas”.

Isso tinha menos a ver com qualquer afinidade particular com os Aliados e os ex-funcionários fascistas do que servir aos interesses práticos de manter a sociedade alemã funcionando sob condições extremamente difíceis, sem ceder sua influência a reemergente esquerda radical. Em menor número, desarmados e superados pelo SPD, a influência da antifa nas três zonas ocidentais de ocupação evaporaria em menos de um ano. A sociedade da Alemanha Ocidental se estabilizou, a Guerra Fria polarizou o continente e as forças políticas da antiga Alemanha, aliadas com a social-democracia e o emergente bloco ocidental, consolidaram seu domínio sobre o país.

O KPD, por sua vez, inicialmente tomado por uma onda de novos membros, viu seu prestígio aumentar, à luz da vitória soviética sobre Hitler e de um amplo sentimento anticapitalista entre os trabalhadores. O partido logo reconstruiu suas bases industriais e, em 1946, controlava o mesmo número de comitês de chão de fábrica que o SPD, na região do Ruhr. Em seu estudo clássico sobre o movimento operário alemão, Die deutsche Arbeiterbewegung, o estudioso Arno Klönne afirma que o total de filiados nas três zonas ocidentais era de 300.000 em 1947, e 600.000 na zona soviética, antes da fundação do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) em 1946.

Cartaz do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED)

Após um breve período de participação nos governos provisórios do pós-guerra, os Aliados logo marginalizaram o KPD e o partido retornou à sua antiga linha ultra-esquerdista. Ele selou sua irrelevância política em 1951, com a aprovação da “Tese 37”, um documento sobre estratégias trabalhistas repleto de insultos aos sociais-democratas e aos sindicatos. A moção, aprovada na conferência do partido, obrigou todos os membros do KPD a obedecerem a decisões partidárias verticais e irem contra diretrizes sindicais se necessário. Esse movimento obliterou o apoio comunista nas fábricas da noite para o dia e relegou o partido às margens. O KPD não conseguiu se eleger para o parlamento nas eleições de 1953 e foi banido pelo governo da Alemanha Ocidental em 1956.

Os desenvolvimentos políticos foram decisivamente diferentes na zona soviética, mas acabaram por terminar em um beco sem saída ainda mais sombrio: a República Democrática Alemã (RDA) – completamente stalinizada pelo líder do SED, Walter Ulbricht. Conhecido por ser um antigo quadro comunista dos primeiros anos do partido, Ulbricht sobreviveu a vinte anos de expurgos stalinistas e repressões fascistas para liderar o “Grupo Ulbricht”, uma equipe de funcionários exilados do KPD, que agora retornava de Moscou para reconstruir o país sob ocupação soviética.

Embora os generais do Exército Vermelho não tivessem uma visão particularmente democrática ou igualitária para a Alemanha Oriental, eles rejeitaram cooperar com a velha hierarquia nazista por suas próprias razões e, por algum tempo, permitiram que os antifas e suas instituições operassem com relativa liberdade. Testemunhas oculares reportam que por volta de 1947, em alguns centros industriais da Alemanha Oriental, como Halle (tradicional curral comunista no pré-guerra), os conselhos de trabalhadores liderados pelo KPD exerciam uma influência decisiva sobre a vida fabril, e que em alguns casos, havia confiança suficiente para conduzir negociações e argumentar com as autoridades soviéticas.

Em uma entrevista para a Jacobin, o ativista veterano do KPO, Theodor Bergmann, fala de Heinrich Adam, membro do KPO e mecânico da fábrica Zeiss em Jena, que se filiou ao SED na esperança de realização da unidade socialista. Heinrich também foi um antifa e sindicalista ativo, que organizou protestos contra a decisão dos soviéticos de tomar a fábrica de Zeiss como reparações de guerra – ele sugeriu a construção de uma nova fábrica na Rússia. Adam foi expulso do partido por suas opiniões independentes em 1952 e viveu seus últimos dias em Jena com uma modesta pensão estatal para veteranos antifascistas.

Em Dresden, um grupo de aproximadamente oitenta comunistas, sociais-democratas e membros do Partido Socialista dos Trabalhadores (SAP), formou um comitê em maio de 1945, para entregar a cidade ao Exército Vermelho. Em cooperação com as autoridades soviéticas, esse grupo posteriormente saquearia lojas de alimentos e armas da Frente de Trabalho Alemã e de outras instituições nazistas, organizando um sistema de distribuição para a população da cidade nas primeiras semanas do pós-guerra.

Os relatórios de autoridades soviéticas e do Grupo Ulbricht descreviam grupos antifascistas rivais, geralmente tolerados pela ocupação, que além de armar os moradores e organizar a prática de tiros, também prendia nazistas locais e chegou a abrir uma cozinha para refugiados nas províncias orientais. As comunicações internas revelam que os líderes comunistas faziam pouco caso da Antifa, rejeitada por Ulbricht como “as seitas antifascistas” em um comunicado a Georgi Dimitrov em meados de 1945.

O objetivo inicial do Grupo Ulbricht era incorporar o máximo possível desses antifascistas ao KPD, eles temiam que a repressão os repelissem ao invés de atraí-los. Wolfgang Leonhard, ex-integrante do Grupo Ulbricht, afirmou mais tarde em suas memórias, Child of the Revolution, que Ulbricht explicou aos colegas funcionários comunistas: “Está muito claro – deve parecer democrático, mas precisamos ter tudo sob nosso controle”.

Esse período terminou quando a República Democrática Alemã começou a se estabelecer como um Estado de partido único, ao estilo soviético, no final da década de 1940, particularmente depois que eleições relativamente livres em 1946, em que resultaram em retornos decepcionantes. Antigos membros do KPO e outros oposicionistas, autorizados a se organizarem após a guerra, foram investigados por crimes políticos passados, expurgados e muitas vezes presos. Nos locais de trabalho, o SED procurou racionalizar a produção, neutralizando, assim, as instâncias de controle fabril e representação democrática que haviam surgido.     

O estabelecimento da Federação Sindical Alemã Livre (FDGB) em 1946 marcou o início da tentativa do SED de estabelecer seu controle sobre as fábricas. Esses “sindicatos”, na verdade, organizavam os trabalhadores da Alemanha Oriental alinhados com os interesses de seus chefes práticos, o Estado da Alemanha Oriental, e procuravam comprar sua lealdade por meio de esquemas de “competição socialista”, trabalho por peça e pacotes de férias patrocinados pelo sindicato. 

No entanto, os sindicatos “livres” não podiam se dar ao luxo de eliminar progressivamente eleições competitivas da noite para o dia. Nos primeiros anos, os ativistas da antifa eram frequentemente eleitos para os comitês chão de fábrica da FDGB, exercendo assim, um pouco mais de influência contínua no local de trabalho. Alguns foram integrados no gerenciamento de nível médio, enquanto outros se recusaram a trair seus princípios e renunciaram ou foram removidos por razões políticas.

A divisão pública entre a União Soviética e a Iugoslávia de Tito, em 1948, acelerou a stalinização da zona de ocupação soviética, e os limitados espaços de auto-organização foram logo fechados por completo. Posteriormente, a tradição do movimento antifascista da RDA seria diluída, distorcida e recriada num mito de origem nacional no qual os cidadãos da Alemanha Oriental eram proclamados os “vencedores da história”, mas onde restava pouco espaço para a história real, para não mencionar o papel ambivalente do comunismo stalinista, por trás dela.   

Ousar a sonhar

Após seu colapso no final de 1945, os antifas iriam desaparecer do cenário político alemão por quase quatro décadas. A moderna antifa com a qual a maioria das pessoas associa o termo não tem nenhuma conexão histórica prática com o movimento do qual leva o nome, que é na realidade um produto da invasão da cena andarilha e do movimento autonomista dos anos 80 – em si um resultado de 1968 consideravelmente menos orientado para a classe trabalhadora industrial que sua fração italiana.

Os primeiros antifas desse novo período funcionaram como plataformas para se organizar contra grupos de extrema-direita como o Partido Nacional Democrático da Alemanha (NPD) em um movimento autonomista com milhares de membros ativos e capaz de ocupar quarteirões inteiros em algumas metrópoles da Alemanha Ocidental.

À medida que a extrema-direita começou a se reconstruir após a reunificação alemã, expressada em chocantes ataques contra refugiados em várias províncias orientais no início da década de 1990, a antifa tornou-se rapidamente um movimento em si mesmo: uma rede nacional de grupos antifascistas organizados na “Antifaschistische Aktion/Bundesweite Organisation” (AA/BO)

De certa forma, esses grupos eram o inverso de seus progenitores: em vez de uma ampla aliança de socialistas e progressistas de correntes ideologicamente distintas, eles eram grupos específicos, expressamente radicais, mais vagos e profundamente heterogêneos em suas especificidades. Ao invés de um ponto de partida para jovens ativistas em uma esquerda política e socialista mais ampla, os antifas fora das grandes cidades são frequentemente a única força política suburbana e funcionam em espaços contraculturais, com seus próprios estilos, cenas musicais e gírias, ao invés de serem componente de um movimento de massas enraizado dentro de uma sociedade mais ampla.

Após a divisão da AA/BO em 2001, antifas continuaram a trabalhar localmente e regionalmente como redes dedicadas de antifascistas que se opunham a manifestações e encontros de extrema-direita, embora muitos também adotassem outras questões e causas de esquerda. O que resta dos andarilhos e da infraestrutura construída entre os anos 1970 e 1990, continua a servir como importante espaço de organização e socialização para a esquerda radical,e os “antifas” como movimento, caminho, visão política geral, sem dúvida continuarão a existir por um bom tempo.

O movimento vem encolhendo continuamente desde o final da década de 1990, fragmentado em linhas ideológicas e incapaz de ajustar suas estratégias autonomistas originais às mudanças dos padrões de urbanização e à ascensão do populismo de direita. Seus produtos mais promissores ultimamente têm sido as mobilizações em massa contra as marchas neonazistas em cidades como Dresden, bem como a formação de uma nova corrente, caracteristicamente pós-autonomista, na forma de Esquerda Intervencionista – marcando um afastamento, ao invés de um renascimento, da estratégia clássica dos antifas.

O antifascismo surgiu na frente dos debates sobre a esquerda americana sob a presidência de Trump, e muitas das táticas e estilos visuais da antifa alemã podem ser vistas emergindo em cidades como Berkeley e outros lugares. Alguns argumentam que com a chegada dos movimentos neofascistas ao estilo europeu nas costas americanas, também é hora de importar as táticas europeias da antifa como resposta.

No entanto, a antifa de hoje não é produto de uma vitória política da qual podemos extrair nossa própria forças, mas de uma derrota – a derrota do socialismo nas mãos do nazismo e do ressurgimento do capitalismo global e, mais tarde, o esgotamento do movimento autonomista na esteira da virada neoliberal e a gentrificação de muitas cidades alemãs.

Apesar das antifas continuarem a funcionar como importantes polos de atração para radicalizar a juventude e garantir que a extrema-direita raramente fique sem oposição em muitos países europeus, sua forma política é de natureza exclusiva, expresso em seu estilo estético, retórico e inacessível às massas populares se unindo ao ativismo pela primeira vez. Uma subcultura de esquerda com seus próprios espaços sociais e vida cultural não é a mesma coisa que um movimento social de massas e não podemos nos permitir essa confusão.

É claro que a experiência da antifa em 1945 nos oferece igualmente poucas lições concretas sobre como combater um ressurgimento da extrema-direita na era Trump. Olhando para trás, a história da esquerda socialista não se trata de destilar fórmulas vitoriosas a serem reproduzidas no século XXI e sim de entender como gerações anteriores entenderam seu próprio momento histórico. E, como em resposta, construíram organizações políticas a fim de desenvolver a própria (esperamos, mais bem-sucedida) estratégia hoje.

Os antifas em Stuttgart, Braunscheweig e em outros lugares, enfrentaram dificuldades impossíveis, mas ainda procuraram articular uma série de demandas políticas e uma visão organizacional prática para os trabalhadores radicais dispostos a ouvir. Antifas recusaram-se a capitular com sua situação aparentemente sem esperança e ousaram sonhar grande. Frente uma esquerda ainda mais fragmentada e enfraquecida do que em 1945, os movimentos antifascistas do mundo todo terão que fazer o mesmo.

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