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Lutz Taufer: Atravessando Fronteiras

Atravessando Fronteiras: da guerrilha urbana na Alemanha ao trabalho comunitário nas favelas brasileiras é o mais novo lançamento da Autonomia Literária. Obra icônica, narrada em primeira pessoa, por Lutz Taufer (1944), militante alemão do movimento antipsiquiátrico e, depois, membro da segunda geração da RAF, a temida Fração do Exército Vermelho, guerrilha urbana alemã ocidental dos anos 1960 e 1970, presente no célebre sequestro à Embaixada Alemã em Estocolmo e, depois de anos de prisão, ativista social nas favelas brasileiras. Mais do que o ato de cruzar dois mundos tão diferentes quanto Alemanha e Brasil, Taufer atravessou fronteiras de todos os tipos desde sua infância na Alemanha Ocidental: derrotada na guerra e em um difícil processo de reconstrução, o país tinha sido paradoxalmente derrotado e sumariamente culpado pela tragédia da segunda guerra, mas era ele o eleito para, na sua reconstrução, ser o coração do capitalismo europeu sem haver uma completa desnazificação.

O livro de Taufer, por seu turno, está muito além de uma “autobiografia”  é tanto mais a narrativa, quase em fluxo de consciência, de um náufrago da História, um personagem humano, demasiadamente humano, que enfrentou as incoerências de seu país, do seu povo e de seu tempo e, agora, procura contar sua história, longe de buscar a glorificação ou qualquer tipo de perdão. A obra traz ao público brasileiro não apenas um personagem que também esteve no Brasil, enfrentando as contradições barrocas do nosso pobre império tropical, como, ainda, uma figura que nos conta algo sobre o qual pouco sabemos: que se passou na Alemanha nos agitados, loucos e inovadores anos 1960? 

Quando as imagens dos eventos de 1968 vêm à tona, hoje cinquentenário, impossível não remetermos à irrupção francesa de maio, da longa revolta italiana ou à Primavera de Praga, as manifestações pelos direitos civis nos Estados Unidos, os mexicanos protestando e sendo massacrados na Praça Tlatelolco ás portas das “olimpíadas da paz”, a resistência dos vietnamitas contra os americanos, a revolução cultural chinesa ou o andamento da revolução cubana.Contudo, a Alemanha nos escapa. Ou quando ouvimos falar em revolta naquele bem-sucedido modelo europeu, o máximo que se imagina diante da revolta radical de jovens contra o Estado é o fantasma do “terrorismo” sem causa.

Fato é que a Alemanha Ocidental, em torno da qual a Alemanha acabou se reunificando nos anos 1990, longe de se limitar ao país que não foi desnazificado ou do país modelo, no qual a “economia social de mercado” representou o santo graal do capitalismo com face humana, fato é que a Alemanha do pós-guerra era um pouco tudo isso: mais humano do que se gosta de ver ou do que gostaria de parecer. E era um país de enorme efervescência contracultural, de levantes contra as instituições e os costumes, com uma tradição de justificada desconfiança.

Taufer, nascido ainda durante a guerra no seio de uma família francófila, viu seu pai sobreviver à marcha suicida de servir ao exército alemão, no derradeiro e fracassado esforço de guerra final, graças a um corajoso ato de covardia — se jogar de um trem em movimento para não ter condições físicas para lutar — cresceu às voltas da pecha dele não ter lutado, enquanto tantos morreram ou se feriram: no seio de uma família estável, onde o mesmo pai trabalhou para a ocupação francesa, o pequeno Taufer cresce num cenário de reconstrução e de fantasmas escondidos em armários. Daí à militância radical, comum à sua geração, foi um pulo.

A geração de baby boomers alemães certamente tinha bem menos esperanças e alegrias que seus equivalentes no outro lado do Atlântico, embora gozassem de um crescimento econômico relevante com justiça social, por outro lado, encaravam o caráter repressor e moralista da sociedade alemã: mesmo as esperanças, como o carismático líder social-democrata Willy Brandt decepcionavam, apoiando estranhamente a Guerra do Vietnã, enquanto normas de exceção eram lentamente reinseridas na legislação, com o aval mesmo da esquerda parlamentar, mesmo tenha sido sido perseguida pelo nazismo.

Para muito além de qualquer defesa de uma causa, Taufer nos leva ao complexo cenário que levou parte de sua geração ao radicalismo da luta armada. A RAF para além do bem e do mal pela pena de um de seus membros, que passou décadas na prisão em virtude disso. A causa que o jovem e o velho Taufer não abriram mão, sem dúvida, foi a da luta, ainda que inglória, por um mundo mais justo e livre. 

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