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Varoufakis lança novo partido para enfrentar establishment europeu

Enquanto a periferia da Europa continua agonizando com o aprofundamento da crise e o aumento do desemprego, ex-Ministro lança o MeRA25, partido-movimento articulado com forças pan-europeias. Conseguirão unir forças para derrotar a Troika?

Por John Psaropoulos, no Al Jazeera | Tradução de Daniel Corral

Atenas, Grécia – Quando Yanis Varoufakis lançou o “Movimento Democracia na Europa 2025” (ou DiEM25 na abreviação em inglês) dois anos atrás, ele disse que o déficit democrático da Europa deveria ser enfrentado como um problema continental.

Seu mandato de seis meses como Ministro das Finanças da Grécia no ano anterior havia convencido Varoufakis de que falta aos governos nacionais a força de vontade, ou o peso e influência, necessários para transformar a Europa.

“A soberania dos parlamentos nacionais foi dissolvida pela zona do euro e pelo Eurogrupo”, dissera ele na época, referindo-se – respectivamente – à união monetária da União Europeia e ao órgão no qual se reúnem os seus Ministros das Finanças.

Na segunda-feira (26/03), Varoufakis anunciou que está fundando um novo partido político na Grécia: MeRA25. Essa iniciativa está em consonância com sua promessa de levar seu movimento transnacional para o nível nacional no momento oportuno, onde serão realizadas novas eleições.

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Seu objetivo é montar um movimento pan-europeu até 2025, que derrubará o establishment europeu. “Está se tornando cada vez mais tóxico, orientado pela lógica de classes, impotente e desacreditado”, disse o ex-ministro ao se referir a UE.

Ele ainda tira energia e bílis daqueles meses formadores durante os quais esteve no cargo, quando o governo da Grécia, liderado pelo Syriza, um partido de esquerda, enfrentou os credores do país na zona do euro e perdeu.

Varoufakis rompeu com o Syriza em julho de 2015, depois que o partido se rendeu a um terceiro empréstimo de resgate com termos austeridade ainda mais severos.

“O que feriu o sonho de 2015 não foi tanto o terceiro memorando”, diz ele, usando a abreviação grega para designar o empréstimo de resgate. “Foi a visão de sua implementação pelo Syriza – a visão da esquerda implementando a austeridade em nome de sua superação. Ouvir [o atual ministro das Finanças] Euclides Tsakalotos dizendo que a austeridade será afugentada pela prosperidade que a austeridade trará é insuportável”, conclui.

A visão do DiEM25

O DiEM25 escalou Benoit Hamon, recente candidato presidencial dos socialistas na França, e o autor Lorenzo Marsili na Itália, para seu lançamento. O tiro de largada para uma eleição pan-europeia foi dado no ano passado, quando o presidente francês Emmanuel Macron sugeriu que se usasse os 73 assentos do Parlamento Europeu deixados vagos pela saída dos eurodeputados britânicos para lançar uma nova categoria de eurodeputados transnacionais, que serão eleitos de uma só vez em vários estados membros da UE.

Desse modo, a UE poderia tentar recuperar sua legitimidade enquanto instituição democrática, mas é também uma oportunidade para o euro-federalista Varoufakis, que assistiu à zona do euro destroçar o parlamento grego em 2015.

“Vimos os deputados da base do governo votarem a favor de medidas das quais diziam discordar, e os deputados da oposição votarem contra essas mesmas medidas, dizendo que as implementariam quando chegassem ao poder”, disse Varoufakis às 600 pessoas reunidas em um teatro no centro de Atenas.

“Isso é uma farsa teatral. Mas você sabe o que nós vamos fazer? Mesmo que eles convertam nosso parlamento em uma farsa teatral, nós converteremos teatros como este aqui em parlamentos”, disse ele seguido de estrondosos aplausos.

“Você não pode ter uma moeda única sem ter também uma política externa e de defesa unificadas”, disse o autor Vasilis Vasilikos, membro do DiEM25, refletindo as atuais preocupações da Grécia no mar Egeu.

“Foi assim que a ‘Europa’ perdeu duas de suas letras e tornou-se apenas ‘euro’,” lembrou ele à Al Jazeera. “Em 2025, nosso movimento dará frutos e resolverá o problema da Europa, que não é grego, mas eminentemente europeu”.

A austeridade teve como consequência a alienação da Europa à maioria dos gregos, embora esta tivesse sido uma das sociedades mais entusiastas com a ideia de uma Europa unida, desde o seu ingresso na Comunidade Econômica Européia em 1981.

Segundo a mais recente sondagem do Eurobarômetro, três quartos dos gregos não confiam nas instituições europeias – o mais alto índice da UE, mais alto até do que o índice na Grã-Bretanha, que votou pela saída do bloco.

Em parte como resultado da austeridade, a Grécia perdeu mais de um quarto de sua economia ao longo de oito anos – um recorde sem precedentes entre economias desenvolvidas desde a Segunda Guerra Mundial. O desemprego disparou para 28% e permanece oficialmente na casa dos 22%.

“Eu decidi me juntar ao DiEM25 porque decidi que agora é hora de agir”, disse uma atriz que se filiou ao partido. “Temos que formular uma proposta alternativa e colocá-la de maneira organizada”.

“Eu gosto de pensar que meus cabisbaixos amigos e colegas de trabalho poderão finalmente reerguer suas cabeças, e serão capazes de recuperar a esperança em uma vida melhor”, disse ela à Al Jazeera.

O que fazer com relação à Grécia?

A Grécia pode ser considerada o marco zero do partido DiEM25. Ela é a única economia na zona do euro que ainda apresenta baixíssimo desempenho, o que continua a irritar políticos e a atrapalhar as previsões de recuperação.

As políticas do partido com relação à Grécia são possivelmente os melhores indicadores do seu pensamento sobre a Europa como um todo.

O partido preconiza uma reestruturação imediata da dívida, prolongando o seu prazo de reembolso e reduzindo a quantidade de dinheiro que a Grécia precisa gastar anualmente para assegurar o serviço da vida.

A Grécia gasta atualmente 3,5% do seu PIB com a dívida – cerca de US $ 8 bilhões.

Varoufakis sugere que sejam gastos no máximo de 1,5% do PIB. Caso contrário, acredita, a austeridade irá se reciclar ao privar a economia dos meios para reinvestir em si mesma.

Enquanto o Syriza acabou por subscrever um terceiro empréstimo de resgate, com suas novas medidas de austeridade, Varoufakis diz que preferia que a Grécia tivesse declarado unilateralmente sua inadimplência quanto ao reembolso da dívida.

Com grande relutância, a zona do euro cedeu em maio passado à pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para que considerasse tal reestruturação.

Mas ela insiste em fazê-lo somente depois de a Grécia superar seu atual empréstimo, em agosto, e não aceita se comprometer com a intensidade recomendada pelo FMI para essa reestruturação.

Varoufakis duvida que a Grécia possa realmente superar a dívida um dia, comparando o discurso do Eurogrupo sobre uma “supervisão reforçada” após agosto ao eufemismo empregado pela CIA para as práticas de “interrogatório reforçado”.

A proposta mais polêmica de Varoufakis consiste em criar um “banco ruim”, de propriedade dos contribuintes, para receber o valor de US $ 130 bilhões em dívidas estagnadas da Grécia, e assim proteger as residências principais das pessoas de uma possível reintegração de posse – proteção que o Syriza removeu em 2015.

Seu raciocínio é que os empréstimos não deveriam ser cobrados pelos bancos enquanto as pessoas não tiverem meios para pagá-los, e as garantias dadas não deveriam ser leiloadas enquanto os imóveis continuarem depreciados (os preços dos imóveis gregos caíram em média 40% durante a crise).

Os bancos já embarcaram em um plano para reduzir sua carteira de créditos estagnados em 40 bilhões de euros (cerca de US $ 50 bilhões) até o final do próximo ano, por meio de uma combinação de cobranças, liquidações, vendas e remissões. As liquidações, polemicamente, devem chegar a 11,5 bilhões de euros (US $ 14 bilhões) e incluir residências principais.

O plano de Varoufakis pouparia essas propriedades, mas ele não detalhou qual seria o custo dessa solução para os contribuintes.

Varoufakis também propõe estimular o crescimento através da redução tanto das vendas como da tributação sobre as pequenas empresas, que aumentaram de forma constante durante os oito anos de depressão na Grécia; mas ele não forneceu detalhes sobre como a receita perdida seria compensada.

As projeções preveem que a Grécia deve crescer 2,4% este ano, mais do que ela cresceu na última década, no entanto expectativas de crescimento de 2,7% no ano passado sofreram uma amarga decepção; A estimativa atual do Ministério das Finanças sobre o desempenho do ano passado é de um crescimento de 1,4%.

A ausência de qualquer reação dos políticos gregos à ascensão de Varoufakis na cena política sugere o quanto eles não se sentem ameaçados. Dois outros membros de gabinete do Syriza que pensavam que a Grécia deveria deixar a zona do euro e parar unilateralmente de pagar suas dívidas formaram um partido dissidente para contestar a eleição de setembro de 2015. Eles receberam 2,86% dos votos e não ingressaram no parlamento.

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