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Maio ou maios de 68?

Na irreparável brecha na ordem social, penetraram temáticas que nos anos precedentes estariam latentes nas lutas mundo afora. Artigo do professor da USP José Eli da Veiga para o jornal Valor Econômico.

As manifestações parisienses que há exato meio século provocaram insólito abalo político foram muito mais impactantes do que ocorrências similares que desde 1967 se multiplicavam por outras plagas. Desencadearam históricas mudanças socioculturais cuja compreensão continua a desafiar as humanidades, a começar pela análise política propriamente dita. Foi só na França que movimentos de universitários e secundaristas catalisaram intelectuais e jovens operários na deflagração de greve geral que paralisou toda uma nação.

Três realces ajudam a avaliar o patrimônio herdado de tais acontecimentos: um de seus slogans, as reedições de um livro lançado no fragor e fúria da batalha, e a obra de um de seus três autores.

“Não me liberte, eu me encarrego”

É claro que pulularam inúmeros outros slogans também significativos, mas na maioria pré-fabricados em intermináveis reuniões de grupinhos da extrema esquerda trotskista e maoísta, ou dos muitos movimentos anarquistas que renasceram. Uma gritaria que nem chegava perto de exprimir a natureza mais profunda e surpreendente das primeiras movimentações: a espontaneidade adolescente dos que as lideraram. Parte dos estudantes que estiveram na vanguarda já haviam atingido a maioridade legal (21 anos), mas continuavam na adolescência, no sentido de permanecerem dependentes dos genitores. Dos quais queriam legitimamente se libertar por iniciativa própria.

Os vinte anos que precederam o tremor por eles provocado haviam sido dos mais gloriosos em termos de melhoria da qualidade de vida. O inverso do que ocorreria a partir de 1973 com a escalada do risco de desemprego. Entre 1948 e 1968 essa ameaça havia sido ínfima, especialmente para a minoria que chegava ao ensino médio. O que muito contribuiu para que a majoritária juventude estivesse em 1968 psiquicamente predisposta e inclinada a abraçar valores catalogados pelos cientistas políticos como pós-materialistas.

Outra dimensão do significativo brado “não me liberte, eu me encarrego” é seu caráter individualista, em radical contraste com a fraternidade comunitária que costumava preponderar nas festivas e por vezes violentas agitações. Está justamente aí a chave sem a qual nem se pode começar a entender os acontecimentos e os processos socioculturais que legaram.

O uso dessa chave seria imprescindível para que surgisse um mínimo denominador comum entre as muitas tentativas de explicar três aspectos: o súbito sentimento coletivo de êxtase, bem semelhante ao da libertação de Paris ao final de agosto de 1945; seus impactos comportamentais de longo prazo; e a forte ressaca que manteve bem acesa a chama das mitologias comunistas até finais dos anos 1970. Uma década antes da queda do muro de Berlim já haviam desabado as fascinantes ilusões sobre China, Camboja, ou Vietnã, mesmo que ativistas mais delirantes tenham deslocado essa parte de sua libido para Albânia, Cuba e até Coreia do Norte.

As muitas divergências analíticas decorrem do uso ainda bem frequente de lógicas binárias, do tipo ‘se é isto, não pode ser aquilo’. Para ser decifrado, maio-68, tanto o político quanto o lúdico, requer raciocínio inverso, que se apoia no ‘também’, no ‘do mesmo modo’, ou no ‘ao mesmo tempo’. Barricadas, veículos incendiados e gases lacrimogêneos são indicadores da violência de acontecimentos durante os quais não houve sequer um tiro. Por mais exaltados que possam ter ficado os mais fanáticos, nenhum deles estragou as explosões de alegria com provocações que levassem a polícia a disparar. Uma não-violência fraternal venceu o ódio agressor, mesmo nos piores dias.

No entanto, para muitos tecnocratas e ideólogos, tão ambivalente diversão só poderia ser prova da falta de seriedade política. O que os obriga a involuntariamente jogar água no moinho das interpretações que classificam o acontecimento como mero acidente de percurso, ou, no máximo, mero encadeamento de circunstâncias. Também é essa forte ambivalência do fenômeno maio-68 que certamente justifica a existência de mais meia dúzia de simplistas padrões explicativos: conflito social tradicional, conflito de classes de novo tipo, crise de civilização, crise da universidade, crise política, e até complô de esquerdistas.

Singulares ou plurais?

Primeiro é preciso perguntar: maio ou maios? Muito melhor do que todas as teses mencionadas sobre um maio singular é o trocadilho ‘mais’, que em francês corresponde tanto ao plural de maio, quanto à nossa mais frequente conjunção de adversidade: mas. Foi esse o título de incisivo acerto de contas intelectual proposto dez anos após os combates pelo filósofo-sociólogo Edgar Morin. Ensaio que entrou na primeira reedição de excelente ‘livro-instantâneo’, pois publicado ainda em 1968 junto com o filósofo Claude Lefort (1924-2010) e o psicanalista Cornelius Castoriadis (1922-1997): Mai 68 – La Brèche. Do qual se espera para muito breve uma tradução da Autonomia Literária: Maio de 1968 – A brecha.

Apesar de passageiro, maio-68 abriu irreparável brecha na ordem social contemporânea, pela qual rapidamente penetraram muitas das temáticas que nos vinte anos precedentes estavam latentes, embora invisíveis, e que hoje até podem parecer por demais corriqueiras. Ambientalismo e feminismo são dois bons exemplos. Aspirações a outro tipo de vida, outra sociedade, outra política, que aproveitaram a ‘brecha’ porque os três poderes e os grandes partidos estiveram momentaneamente reduzidos ao silêncio.

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Só que tais aspirações também estiveram intimamente misturadas ao que mais as contrariava: sectarismo, doutrinarismo e raiva. Por isso, a mensagem de maio não poderia ter deixado de ser confusa e inacabada. Nesse sentido, maio foi muito mais uma espécie de nó górdio que instigou pensadores do quilate do trio ‘CLM’ – Castoriadis-Lefort-Morin – a posteriores reflexões individuais que foram muito além do que juntos conceberam como séria brecha.

A rigor, mais do que uma única brecha, os maios de 1968 podem ter sido manifestações precoces de um fenômeno que demorou um pouco para mostrar a cara. Em ensaio de 1986, que também foi inserido em reedição do livro A Brecha, Edgar Morin revela que foi só lá pelos estertores da década de 1970 que ele próprio passou a considerar o maio-68 francês como primeiro e ambivalente estágio de uma virada global que só se efetivaria em 1973-1978.

A aventura de Morin

Das trajetórias individuais do trio CLM, a mais frutífera, foi sem dúvida, a de Edgar Morin, que em julho completará 97.

Como sociólogo, aos 44 começara a mergulhar em questões científicas de fronteira, essencialmente voltadas à psicobiologia humana e à cibernética. Motivado pelas discussões inter/transdisciplinares de pequeno grupo puxado pelo médico Jacques Robin. Mas foi justamente no pós-maio-68 que surgiu a oportunidade de curtir fecunda temporada na Califórnia, a convite do Instituto Salk. Fundado em 1960 para se dedicar a pesquisas em biologia molecular, genética, neurociências e botânica, esse instituto desde logo favoreceu investigações supradisciplinares que pudessem ser tocadas por pesquisadores visitantes oriundos das ciências naturais ou das humanidades.

Foi assim que Morin teve o privilégio de ler, em primeira mão, os manuscritos do hoje clássico O Acaso e a Necessidade, a pedido do próprio autor, Jacques Monod, prêmio Nobel de biologia em 1965. O que logo o obrigou a se interessar também por termodinâmica, devido a observações sobre a genética feitas por outro grande biólogo francês, Henri Atlan. E que, por sua vez, o levaram às teorias dos sistemas, da informação, da comunicação, dos jogos, e quântica, assim como à cibernética de segunda ordem, e aos debates sobre a auto-organização como originalidade da vida. Ou seja, uma vasta revisão de boa parte dos cruciais avanços do pensamento humano em meados do século XX.

Edgar Morin em 1968.

Esse contato mais próximo com as ciências naturais, somado à interlocução com pesquisadores do vizinho e heterodoxo Instituto Santa Fé, e à influência da então pujante contracultura californiana, engendraram em 1970 um ambicioso projeto de investigações que, em vez de um livro, resultou em meia dúzia de intrincadas obras teóricas ao longo de praticamente trinta anos: 1977-2004. Com o enigmático título Método, o conjunto aborda seis grandes temas, nesta ordem: a natureza, a vida, o conhecimento, as ideias, a humanidade e a ética.

Contraste brutal

É bem raro encontrar alguém que tenha se empenhado nessa leitura, que em sua melhor edição – a de 2008 pelas Éditions du Seuil – é oferecida na forma de dupla trilogia: box com dois volumes que ocupam 2.500 páginas em papel bíblia. No Brasil, por exemplo, tudo indica que tal ‘hexalogia’ só tenha tido dois leitores: com certeza Edgard de Assis Carvalho, professor do departamento de antropologia da PUC-SP, e provavelmente também Juremir Machado da Silva, professor da faculdade de comunicação social da PUC-RS.

Bem ao contrário, são extremamente populares alguns dos trabalhos posteriores de Morin dedicados às perspectivas da educação. Tema ao qual só passou a se dedicar ao final dos anos 1990, por convocação do primeiro-ministro Lionel Jospin para coordenar força-tarefa com a missão de propor radical reforma do ensino médio. Foi essa experiência de reflexão coletiva que lhe permitiu dar à luz, em 1999, a dois livros que continuam a ser vendidos feito pipoca, além de facilmente pirateados na internet: Cabeça Bem-Feita, com mais de vinte edições pela Bertrand Brasil, e Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, distribuído pela Unesco pelo mundo inteiro.

O brutal contraste entre a excepcional influência desses dois best sellers e o irrisório interesse pela vasta obra teórica de Morin se explica, em grande parte, pelo fascínio que exercem bons aportes de caráter normativo, ao contrário das árduas agruras anunciadas por rigorosas contribuições analíticas. Também se deve à facilidade com que educadores se empolgam com conjecturas pedagógicas, na contramão das dificuldades com a própria leitura enfrentadas por eventuais clientes de suas reflexões mais abstratas. O pior, contudo, é que ainda há agravante: todas essas formulações teóricas gravitam em torno de uma questão-medula, ainda não mencionada: a da complexidade. O que, por si só, sempre poderá parecer com um bicho de sete cabeças.

Árvore

Embora existam diversas nuances nas definições mais em voga de complexidade, nenhuma delas pode se afastar do velhíssimo ponto de partida: o todo costuma ser maior do que as partes que o compõem. Ou melhor, as interações entre as partes tendem a fazer emergir propriedades de ordem superior ao que à primeira vista parece ser o todo.

Um dos mais criativos acréscimos feitos por Morin está na proposição de que, ‘também’, ‘do mesmo modo’, e ‘ao mesmo tempo’, o todo é menor que as partes que o compõem. Usando a metafórica imagem de uma tapeçaria, ele realça a impossibilidade de que algum dos tipos de fio que a formam possa se expressar plenamente. Exemplo concreto de um fenômeno bem perceptível, mas que não tem como ser explicado por recurso a alguma lei que seja simples.

Ao longo dos três decênios requeridos pela construção dos seis andares desse edifício chamado O Método, Morin optou por várias interrupções para redigir livros que parecem periféricos a esse núcleo duro de sua trajetória intelectual pós-1968. Mas não é essa a avaliação do próprio autor, que evoca a figueira-de-bengala, árvore endêmica na Índia, Bangladesh e Sri Lanka, cuja característica mais marcante é gerar raízes aéreas delgadas que crescem até atingir o solo, começando então a engrossar até formarem novos troncos indistinguíveis do tronco principal. Um de seus espécimes mais admirados no Brasil é o que foi conservado na rua Haddock Lobo pelo badalado restaurante Figueira Rubaiyat. Para Morin esse ficus benghalensis simboliza o ciclo recursivo próprio a tantos processos complexos em que produtos viram produtores daquilo que os produziu. Mas não chega a admitir de forma explícita que as raízes aéreas de sua erudição começaram a atingir o solo com o maio de 1968.

José Eli da Veiga é professor sênior de sustentabilidade na USP. Em 1968, aos 20, foi presidente do grêmio estudantil de sua antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL-USP), com sede no prédio da rua Maria Antônia. Mantém dois sites: www.zeeli.pro.br e www.sustentaculos.pro.br

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