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A atualidade revolucionária do conceito “apoio mútuo” de Piotr Kropotkin

Traduzimos o último texto escrito pelo camarada anarquista David Graeber, em quatro mãos com Andrej Grubačić, antes de partir. Neste prefácio ao livro ilustrado de Piotr Kropotkin, os autores desafiam a estrutura intelectual do fascismo, o darwinismo social dos liberais e apontam as limitações do marxismo bolchevique para defender a única alternativa viável à barbárie capitalista: o socialismo sem Estado.

Por David Graeber e Andrej Grubačić, em PM Press
Tradução de Peterson Silva

Às vezes – não muito frequentemente – um argumento particularmente coerente contra o senso comum político em voga causa tamanho choque no sistema que é preciso criar todo um corpo teórico para refutá-lo. Essas intervenções são em si eventos, no sentido filosófico; revelam aspectos da realidade que estavam em grande parte invisíveis mas que, uma vez revelados, parecem tão óbvios que nunca mais deixarão de ser vistos. A maior parte do trabalho de intelectuais da direita é identificar e manipular tais desafios.

Podemos dar três exemplos.

No final do século XVII, um homem público hurão* chamado Kondiaronk, que visitou a Europa e estava bem familiarizado com a sociedade colonizadora francesa e inglesa, envolveu-se em uma série de debates com o governador francês do Quebec, e um de seus principais assessores, um cara chamado Lahontan. Nesses debates, ele apresentou o argumento de que as punições e todo o aparelho estatal não existiam por causa de alguma falha fundamental na natureza humana, mas devido à existência de um outro grupo de instituições – propriedade privada, dinheiro – que por sua própria natureza fazem as pessoas agir de modo que medidas coercitivas sejam necessárias. A igualdade, ele argumentava, é portanto uma condição para qualquer liberdade significativa.

Mais tarde, Lahontan registrou os debates num livro, que nas primeiras décadas do século XVIII ficou incrivelmente famoso. Virou uma peça que ficou em cartaz por vinte anos em Paris, e parece ter sido muito imitado pelos iluministas. Esses argumentos – e a crítica indígena mais ampla à sociedade francesa – ficaram tão poderosos que defensores da ordem social vigente, como Turgot e Adam Smith, efetivamente tiveram que inventar a ideia de evolução social como uma resposta direta a eles. As pessoas que inventaram esse argumento – de que as sociedades humanas se dividiam em diferentes estágios de desenvolvimento, cada um com características tecnológicas e formas organizativas próprias – eram bem sinceras quanto a suas intenções. “Todo mundo ama a liberdade e a igualdade”, observou Turgot; a questão é quanto de cada uma é consistente com uma sociedade comercial avançada baseada em uma divisão sofisticada de trabalho. As teorias de evolução social resultantes dominaram o século XIX, e ainda estão conosco hoje, ainda que um pouco diferentes.

No final do século XIX e começo do XX, a crítica anarquista ao Estado liberal – de que o domínio da lei em última instância se baseava na violência arbitrária, sendo assim, enfim, apenas uma versão secularizada do Deus todo-poderoso que pode criar a moralidade porque está fora dela – foi levada tão a sério por defensores do Estado que juristas de direita como Carl Schmitt acabaram tendo que criar a estrutura intelectual do fascismo. Schmitt termina sua obra mais famosa, Teologia Política, com um discurso contra Mikhail Bakunin, cuja rejeição do “decisionismo” – a autoridade arbitrária de criar uma ordem legal, e portanto de também suspendê-la – era, dizia Schmitt, tão arbitrária quanto a autoridade à qual Bakunin dizia se opor. A própria concepção de teologia política, fundamental para quase todo pensamento contemporâneo de direita, foi uma tentativa de responder a Deus e o Estado, de Bakunin.

O desafio colocado por Piotr Kropotkin em Apoio Mútuo: Um Fator de Evolução vai, em certo sentido, ainda mais afundo, uma vez que não se trata apenas da natureza do governo, mas da natureza da própria natureza – isto é, da realidade.

Teorias de evolução social, do que Turgot batizou de “progresso”, podem ter começado como uma forma de sabotar a crítica indígena, mas elas logo começaram a assumir formas mais virulentas, já que liberais extremistas como Herbert Spencer passaram a representar a evolução social não apenas como uma questão de complexidade, diferenciação e integração crescentes, mas como uma espécie de luta hobbesiana pela sobrevivência. A frase “sobrevivência dos mais aptos” foi na verdade cunhada em 1852 por Spencer, para descrever a história humana – e por fim, presume-se, para justificar o genocídio e o colonialismo europeus. Ela foi utilizada por Darwin apenas uma década mais tarde, ao descrever, n’A Origem das Espécies, as formas de seleção natural que ele havia identificado na famosa expedição às Ilhas Galápagos.

Enquanto Kropotkin escrevia Apoio Mútuo, nos anos 1880 e 1890, as ideias de Darwin haviam sido adotadas por defensores do mercado, mais notoriamente por seu “buldogue”, Thomas Huxley, e o naturalista inglês Alfred Russel Wallace. Estes as usaram para propor a chamada “visão gladiatorial” da história natural. Espécies duelam como boxeadores no ringue ou negociadores de ações na bolsa de valores e os mais fortes prevalecem.

A resposta de Kropotkin – de que a cooperação é um fator tão decisivo na seleção natural quanto a competição – não era completamente original. Ele nunca fingiu que fosse. Na verdade, ele não estava apenas usando o melhor conhecimento biológico, antropológico, arqueológico e histórico disponível em sua época, incluindo suas próprias explorações na Sibéria, mas também a escola russa de teoria evolucionária, uma alternativa que considerava a supercompetitiva contraparte inglesa “um lenço de absurdos”, como ele costumava dizer. Pessoas como “Kessler, Severtsov, Menzbir, Brandt – quatro grandes zoólogos russos, e um quinto menor, Poliakov, e por fim eu mesmo, um mero companheiro de viagem”.

Ainda assim, devemos dar crédito a Kropotkin. Ele era muito mais que um mero companheiro de viagem. Esses homens foram completamente ignorados por darwinistas ingleses do alto de seu império – foram ignorados, de fato, por quase todo o resto do mundo. O tiro de aviso de Kropotkin, no entanto, não foi. Isso sem dúvida ocorreu em parte porque suas descobertas científicas foram apresentadas num contexto político mais amplo, de modo que se tornou impossível negar o quanto a versão prevalecente da ciência darwinista não era apenas um reflexo inconsciente de pressupostos liberais (como Karl Marx notoriamente escreveu, “a anatomia do homem é a chave para a anatomia do símio”). Era uma tentativa de catapultar as perspectivas das classes comerciais à universalidade.

O darwinismo daquela época era ainda uma intervenção política militante e consciente, devotada a reformar o senso comum; uma insurgência centrista, poder-se-ia dizer, ou melhor, uma insurgência que gostaria de ser centrista, já que ela queria criar um novo centro. Ela não era ainda senso comum; era uma tentativa de criar um novo senso comum universal. Se ela não foi, em última análise, completamente bem-sucedida, foi parcialmente por conta do poder do contra-argumento de Kropotkin.

Não é difícil ver o que deixou a intelectualidade liberal tão desconcertada. Considere o seguinte trecho de Apoio Mútuo, que realmente merece ser citado por completo:

“Não é amor, e nem mesmo simpatia (compreendida em seu sentido literal), o que leva um rebanho de ruminantes ou de cavalos a fazer um círculo a fim de resistir ao ataque dos lobos; ou lobos a formar uma alcateia para caçar; ou gatinhos ou cordeiros a brincar; ou os filhotes de uma dezena de espécies de aves a passarem os dias juntos no outono. Também não é amor, nem simpatia pessoal, que leva muitos milhares de gamos, espalhados por um território do tamanho da França, a formar dezenas de rebanhos distintos, todos marchando em direção a um determinado ponto para cruzar um rio. É um sentimento infinitamente mais amplo que o amor ou a simpatia pessoal – é um instinto que vem se desenvolvendo lentamente entre animais e entre seres humanos no decorrer de uma evolução extremamente longa e que ensinou a força que podem adquirir com a prática da ajuda e do apoio mútuos, bem como os prazeres que lhes são possibilitados pela vida social. […] não é no amor, e nem mesmo na simpatia, que a sociedade se baseia. É na percepção – mesmo que apenas no estágio do instinto – da solidariedade humana. É o reconhecimento inconsciente da força que cada homem obtém da prática da ajuda mútua; da íntima dependência que a felicidade de cada um tem da felicidade de todos; e do senso de justiça ou de equidade que leva o indivíduo a considerar os direitos de todos os outros indivíduos iguais aos seus. É sobre esse alicerce amplo e necessário que se desenvolvem sentimentos morais mais elevados.”

Basta considerar o nível da reação. Ao menos dois campos de estudo (embora interseccionados), a sociobiologia e a psicologia evolucionária, foram criados desde então especificamente para reconciliar os argumentos de Kropotkin quanto à cooperação entre animais com a presunção de que somos em última instância dirigidos por, segundo Dawkins, nossos “genes egoístas”. Quando o biólogo britânico J. B. S. Haldane aparentemente disse estar disposto a perder sua vida para salvar as de “dois irmãos, quatro meio-irmãos ou oito primos de primeiro grau”, ele estava meramente papagaiando esse tipo de cálculo “científico” formulado para responder a Kropotkin, assim como “progresso” foi inventado para manter Kondiaronk em cheque, ou a doutrina do Estado de Exceção, para contornar Bakunin.

A frase “gene egoísta” não foi escolhida por acaso. Kropotkin havia revelado comportamentos no mundo natural que eram o exato oposto do egoísmo: o jogo darwinista passou a ser encontrar uma desculpa, qualquer uma, para insistir que mesmo os comportamentos mais brincalhões, amorosos, extravagantes, heroicamente sacrificiais ou sociáveis eram egoístas no fim das contas.

Os esforços da direita intelectual para estar à altura do enorme desafio da teoria de Kropotkin são compreensíveis. Como já observamos, isso é exatamente o que ela gosta de fazer. É por isso que os chamamos de “reacionários”. Eles não acreditam na criatividade política como um valor em si mesmo – na verdade, consideram-na profundamente perigosa. Como resultado, intelectuais de direita existem principalmente para reagir às ideias avançadas pela esquerda. Mas e quanto à esquerda intelectual?

É aqui que as coisas ficam um pouco confusas. Enquanto intelectuais de direita buscaram neutralizar o holismo evolucionário de Kropotkin ao desenvolver todo um sistema intelectual, a esquerda marxista fingiu que essa intervenção nunca ocorreu. Poder-se-ia até dizer que a resposta marxista à ênfase de Kropotkin no federalismo cooperativo foi desenvolver ainda mais os aspectos da própria teoria de Marx que puxavam mais forte na outra direção: isto é, seu lado mais produtivista e progressivista.

Ideias riquíssimas de Apoio Mútuo foram no melhor dos casos ignoradas e, no pior dos casos, descartadas com um muxoxo condescendente. Há uma tendência tão persistente entre acadêmicos marxistas e, por extensão, acadêmicos de esquerda em geral, a ridicularizar o “socialismo salva-vidas” e o “utopismo ingênuo” de Kropotkin, que um renomado biólogo, Stephen Jay Gould, achou necessário dizer, em um famoso ensaio, que “Kropotkin não era nenhum palhaço”.

Há duas explicações possíveis para essa rejeição estratégica. Uma delas é puro sectarismo. Como já notamos, as intervenções intelectuais de Kropotkin eram parte de um projeto político mais amplo. Foi no final do século XIX e começo do XX que surgiram as fundações do Estado de bem-estar social, cujas instituições-chave foram, de fato, em grande parte criadas por grupos de ajuda mútua, de forma totalmente independente do Estado. Este, junto a partidos políticos, gradualmente as cooptaram. A maior parte da intelectualidade de direita e de esquerda estava perfeitamente alinhada quanto a isso: Bismarck admitiu que criou as instituições alemãs de bem-estar social como um “suborno” à classe trabalhadora, para que não se tornasse socialista; socialistas insistiam que nada, nem a seguridade social nem as bibliotecas públicas, fossem administradas pelos grupos sindicalistas e comunitários que as criaram, mas sim por partidos de vanguarda, de cima para baixo. Nesse contexto, ambos os lados consideraram imperativo representar o socialismo ético de Kropotkin como bobagem.

Vale também lembrar que – parcialmente por esta mesma razão – no período entre 1900 e 1917, ideias anarquistas e marxistas libertárias eram muito mais populares na classe trabalhadora que o marxismo de Lenin e de Kautsky. Para abafar esses debates, foi preciso que o setor leninista do partido bolchevique na Rússia (naquela época, considerado a direita dos bolcheviques) vencesse e suprimisse os sovietes, o Proletkult, e outras iniciativas dentro da própria União Soviética organizadas de baixo para cima.

Há outra explicação possível, contudo, uma que tem mais a ver com o que podemos chamar de a “posicionalidade” tanto do marxismo tradicional quanto da teoria social contemporânea. Qual é o papel do intelectual radical? A maioria dos intelectuais ainda se dizem radicais de um tipo ou de outro. Em teoria, todos concordam com Marx que não basta compreender o mundo; a questão é mudá-lo. Mas o que isso significa na prática?

Em um parágrafo importante de Apoio Mútuo, Kropotkin sugere que o papel do acadêmico radical é “recuperar as verdadeiras proporções entre o conflito e a união”. Isso pode soar obscuro, mas ele explica melhor. Radicais devem “recorrer à análise minuciosa de milhares de pequenos fatos e de indícios vagos acidentalmente preservados no que restou do passado, a interpretá-los com a ajuda da etnologia comparada e, depois de tanto ouvir falar sobre o que dividia os seres humanos, reconstruir, pedra sobre pedra, as instituições que os uniam”.

Um dos autores deste texto ainda lembra sua alegria juvenil ao ler essas palavras. Quão diferente do treinamento sem vida recebido na academia do Estado-nação! Essa recomendação deveria ser lida junto àquela de Karl Marx, que se dedicou a entender a organização e o desenvolvimento da produção capitalista. N’O Capital, a única atenção verdadeira dada à cooperação é um exame das atividades cooperativas como formas e consequências da produção fabril, onde trabalhadores “formam meramente um modo particular de existência de capital”. Parece-me que os dois projetos se complementam muito bem. Kropotkin queria entender exatamente o que foi que um trabalhador alienado perdeu com sua alienação. Porém, integrar os dois leva a entender que até mesmo o capitalismo se baseia no comunismo (“apoio mútuo”), ainda que seja um comunismo que ele não admita; que o comunismo não é um ideal distante e abstrato, impossível de ser mantido, mas uma realidade prática que todos vivenciam diariamente, em diferentes graus, e sem a qual nem mesmo indústrias poderiam funcionar – mesmo que grande parte desse comunismo aconteça às escondidas, entre as fraturas, ou entre turnos, ou informalmente, ou naquilo que não é dito, ou de forma completamente subversiva. Virou moda hoje em dia dizer que o capitalismo entrou em uma nova fase em que ele se tornou parasitário de formas de cooperação criativa, principalmente na internet. Isso é besteira. Ele sempre foi assim.

Esse é um projeto intelectual digno. Por alguma razão, quase ninguém está interessado em desenvolvê-lo. Em vez de examinar como relações de hierarquia ou exploração são reproduzidas, negadas, e misturadas a relações de apoio mútuo, como relações de cuidado se tornam contínuas com relações de violência, sendo mesmo assim essenciais para que sistemas de violência não se desmantelem por completo, tanto o marxismo tradicional quanto a teoria social contemporânea teimosamente rejeitam basicamente qualquer generosidade, cooperação ou altruísmo, como se fossem algum tipo de ilusão burguesa. O conflito e o cálculo egoísta se provaram mais interessantes que a “união” (além disso, é bem comum que acadêmicos de esquerda escrevam sobre Carl Schmitt ou Turgot, embora é quase impossível encontrar quem escreva sobre Bakunin ou Kondiaronk). Como se queixava o próprio Marx, sob o modo capitalista de produção, existir é acumular.

Nas últimas décadas, ouvimos quase nada além de exortações incessantes quanto a táticas cínicas para aumentar nosso respectivo capital (social, cultural ou material). Tais exortações são publicadas como se fossem observações críticas. Mas se tudo que você tem a dizer é aquilo ao que diz se opor, se tudo que você consegue imaginar é aquilo ao que diz se opor, então em que sentido você realmente se opõe a isso? Às vezes parece que a esquerda acadêmica acabou, como resultado disso, gradualmente internalizando e reproduzindo todos os aspectos mais incômodos do economismo neoliberal ao qual ela diz se opor. Chega a um ponto em que ler tantas análises (vamos ser gentis e não dar nomes aos bois) faz você se perguntar quão diferente isso realmente é das hipóteses sociobiológicas de que nosso comportamento é governado por “genes egoístas”!

É verdade que esse tipo de internalização do inimigo já passou de seu ápice, nos anos 80 e 90, quando a esquerda global estava em franca retirada. Deixamos isso para trás. Kropotkin é relevante de novo? Bem, é claro, Kropotkin sempre foi relevante, mas esse livro está sendo relançado na convicção de que há uma nova geração radicalizada, com muita gente que nunca foi exposta diretamente a essas ideias, mas que dá todos os sinais de ser capaz de fazer uma análise melhor sobre a situação global que seus pais ou avós, no mínimo porque sabem que, se não o fizerem, o mundo se tornará um inferno muito em breve.

Já está acontecendo. A relevância política de ideias que apareceram primeiro em Apoio Mútuo já está sendo redescoberta por novas gerações de movimentos sociais ao redor do planeta. A revolução social que ocorre neste momento na Federação Democrática do Nordeste da Síria (Rojava) foi profundamente influenciada pelos escritos de Kropotkin sobre a ecologia social e o federalismo cooperativo, em parte a partir dos escritos de Murray Bookchin, em parte direto da fonte, e em grande parte também a partir das próprias tradições e experiências revolucionárias curdas.

Curdos revolucionários assumiram para si a tarefa de construir uma nova ciência social antagônica às estruturas de conhecimento da modernidade capitalista. Quem se envolve em projetos coletivos de sociologia da liberdade e jineologia de fato já começou a “reconstruir, pedra sobre pedra, as instituições que” unem povos e lutas. Em todo lugar no norte global, de vários movimentos de ocupação até projetos de solidariedade confrontando a pandemia da COVID-19, o apoio mútuo surgiu como uma frase-chave usada tanto por ativistas quanto por jornalistas convencionais. Atualmente, o apoio mútuo é invocado em iniciativas de solidariedade a migrantes na Grécia e na organização da sociedade zapatista em Chiapas. Há rumores de que até mesmo na academia o termo seja usado de vez em quando.

Quando Apoio Mútuo foi lançado pela primeira vez em 1902, havia poucos cientistas corajosos o suficiente para desafiar a ideia de que o capitalismo e o nacionalismo estavam enraizados na natureza humana, ou de que a autoridade dos Estados era em última instância inviolável. A maioria daqueles que o faziam eram de fato desacreditados como malucos ou, se eram obviamente muito importantes para serem ignorados dessa maneira, como Albert Einstein, “excêntricos” cujas visões políticas tinham tanta significância quanto seus penteados esquisitos. O resto do mundo, no entanto, está virando a página. Será que cientistas – até mesmo, quem sabe, cientistas sociais – vão fazer isso também algum dia?

Escrevemos essa introdução durante uma onda de revolta popular global contra o racismo e a violência do Estado, enquanto autoridades públicas cospem veneno contra “anarquistas” quase da mesma forma como faziam no tempo de Kropotkin. Parece um momento peculiarmente propício para brindar ao velho “desprezador da lei e da propriedade privada” que mudou o rosto da ciência de formas que continuam a nos afetar hoje. A obra acadêmica de Pyotr Kropotkin era cuidadosa e colorida, perspicaz e revolucionária. Ela também envelheceu estranhamente bem. Kropotkin rejeitava tanto o capitalismo quanto o socialismo burocrático, e previa aonde o último levaria; várias vezes vimos que ele estava certo. Olhando para a maioria dos debates de sua época, não há nenhuma dúvida sobre quem estava certo.

Obviamente, há ainda quem violentamente discorde disso; quem se prenda a sonhos de embarcar em navios que há muito já passaram. Há quem seja bem pago para pensar as coisas que pensam. Os autores dessa modesta introdução, muitas décadas depois de encontrar esse maravilhoso livro pela primeira vez, ficam surpresos – de novo – com o quão profundamente concordam com seu argumento central. A única alternativa viável à barbárie capitalista é o socialismo sem Estado, um produto, como o grande geógrafo nunca cansa de nos lembrar, “de tendências aparentes agora na sociedade” e que estiveram “sempre, em algum sentido, iminentes no presente”. Para criar um novo mundo, só podemos começar redescobrindo o que está, e sempre esteve, diante de nossos olhos.

* Os hurões, huronianos, wyandot ou wendat são um grupo de indígenas agricultores da América do Norte.

– Andrej Grubačić, dissidente anarquista, historiador e autor de Don’t Mourn, Balkanize !: Essays After Yugoslavia, and Wobblies  Zapatistas: Conversations on Anarchism, Marxism and Radical History.

– David Graeber foi um ativista anarquista, antropólogo e professor leitor de antropologia social, no Colégio Goldsmith da Universidade de Londres. Autor de alguns clássicos como o livro Divida: os primeiros 5,000 anos.

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