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Varoufakis: o que aconteceu na China?

Por Yanis Varoufakis | Tradução Vila Vudu

A Grécia sumiu das manchetes, por enquanto, porque só se fala da crise chinesa. Nesse nosso mundo globalizado, as duas crises estão intimamente interconectadas, ambas como repercussões do ‘momento’ 2008 do capitalismo global.

Aqui vão alguns excertos de meu livro O Minotauro Global [que será lançado ainda esse semestre pela Autonomia Literária ainda esse semestre], da edição de 2013:

CHINA DEPOIS DO MINOTAURO

No penúltimo capítulo do livro, discuti o Dragão Rampante que, como nos dizem, estaria esperando nas coxias, supostamente para derrotar o Minotauro Global (interessados encontram aqui uma cópia PDF desse capítulo). Nas conclusões, redigidas em janeiro de 2011, escrevi:

“Para ganhar tempo, o governo chinês está estimulando sua economia em crescimento e a mantém blindada contra revalorizações da moeda, na esperança de que aquele crescimento vibrante possa continuar. Mas estão vendo os sinais, e eles não sinalizam boa coisa. Por outro lado, a ratioconsumo da China/PIB está caindo; sinal claro de que o mercado doméstico não pode gerar demanda suficiente para as gigantescas fábricas chinesas.

Por outro lado, as suas injeções fiscais estão causando bolhas imobiliárias. Se nada for feito, elas podem explodir e causar assim um desdobramento doméstico catastrófico. Mas como se esvazia uma bolha, sem impactar o crescimento? Essa é a pergunta de vários trilhões de dólares que Alan Greenspan não conseguiu responder. Não se sabe se as autoridades chinesas conseguirão.”

Nos 18 meses depois de essas linhas terem sido escritas (em 2011), os eventos já confirmaram o padrão projetado.

A tabela adiante mostra que a taxa do consumo chinês continua na descendente. Em 2011, de cada um dólar de renda produzida, só 29 cents entravam nos mercados chineses. Com exportações líquidas dando pequena contribuição nacional à demanda doméstica (mesmo que contribuam muito para a capacidade do país para investir e, assim, aumentem a produtividade), o ônus cai cada vez mais sobre o investimento, para suprir a demanda. Porém, como sugerido no parágrafo acima, essa ênfase no investimento é faca de dois gumes: porque ameaça soprar o gênio para fora da garrafa nos mercados imobiliários, onde as bolhas já fervem ameaçadoramente há algum tempo. 

Composição da Demanda Chinesa Agregada – (% do PIB)
1990 1995 2000 2005 2009 2011
Consumo privado 49 44 45 40 34 29
Investimento 35 42 36 42 48 58
Consumo do governo 12 13 17 12 11 10
Exportações líquidas 4 1 2 6 7 3
Fonte: National Bureau of Statistics of China

De fato, em 2011 as autoridades chinesas apertaram as condições para concessão de novos empréstimos para moradia, na esperança de que esse movimento não afetasse investimentos produtivos, ao mesmo tempo em que impedisse o surgimento de mais elefantes brancos e blocos de apartamentos vazios (que profissionais chineses de classe média compram, depois de endividar-se pesadamente, mas deixam vazios, na esperança de adiante vendê-los com lucro – uma bolha-padrão em formação).

Infelizmente, enquanto a demanda por moradias caiu, sinais claros logo apareceram de que a intervenção do governo não esvaziara só a bolha imobiliária, mas também o resultado industrial. Que sinais claros? O nível de consumo de energia elétrica, que empacou no início de 2012. A última vez que isso aconteceu, em 2008/9, a taxa de crescimento da produção industrial caiu rapidamente logo depois, o que levou Pequim a estimular a economia num nível que deprimiu ainda mais a ratio do consumo. Para evitar isso, o governo está agora relaxando as limitações à concessão de hipotecas, aceitando um renovado risco de bolha na moradia.

Em resumo, assim como nos países europeus superavitários, também na China a redução de ¼ na demanda global agregada ocasionada pela passagem do Minotauro Global, impediu qualquer recuperação significativa. Na verdade, tornou o mundo em que vivemos ainda mais precário, porque os remédios tentados (estímulos, na China; ‘alívio quantitativo’, nos EUA; e ‘austeridade’ na Europa) aumentam a probabilidade de que a Crise lance pequenos e repulsivos apêndices. Assim, até que e a menos que algum mecanismo global de reciclagem brote das cinzas do Minotauro para substituí-lo, o mundo continuará a ser lugar inseguro, deprimente

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