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Varoufakis: como, e por que, o petróleo ainda move o mundo?

Em tempos de crise aguda no Brasil, na qual a política de Temer para os combustíveis está no cerne do movimento de caminhoneiros que parou o Brasil, essencial entender a natureza do petróleo na atual economia capitalista: não só como matriz energética, sobretudo, como importante fator econômico.

Por Yanis Varoufakis

Trecho do capítulo “Interregno: crises do petróleo dos anos 1970, estagflação e aumento das taxas de juro”, extraído do livro “O Minotauro Global” publicado pela Autonomia Literária em 2016.

Logo depois, Nixon despachou seu secretário do Tesouro (um pragmático texano chamado John Connally) para a Europa com uma mensagem clara. De acordo com o que Connally contou aos jornalistas, o que ele disse para os europeus foi suave e afável:

“Dissemos a eles que estávamos aqui como uma nação que tinha dado muito de nossos recursos financeiros e nossos recursos materiais, e muito mais, ao Mundo, a um ponto em que, francamente, agora, com isso ocorrendo há 20 anos, estávamos acumulando déficits, pois isso tinha drenado nossas reservas e drenado nossos recursos a um ponto em que não poderíamos mais. Estávamos em dificuldade e vínhamos a nossos amigos para pedir ajuda, assim como eles tinham feito tantas vezes no passado, quando estavam com problemas. Isso é em essência o que lhes disse.”

Sua mensagem real ainda está soando nos ouvidos europeus: é nossa moeda, mas é seu problema. O que Connally quis dizer foi que, como o dólar era a moeda de reserva (ou seja, o único meio verdadeiramente global de câmbio), o fim de Bretton Woods não era problema dos Estados Unidos. O Plano Global foi naturalmente concebido e implementado para ser de interesse dos Estados Unidos. Mas, as pressões sobre ele (causadas pelo Vietnã e pelas tensões internas nos Estados Unidos, que exigiam um aumento nos gastos domésticos do governo) aumentaram de tal forma que o sistema atingiu seu ponto de ruptura. Entretanto, os maiores perdedores não seriam os Estados Unidos, mas a Europa e o Japão – as duas zonas econômicas que mais tinham se beneficiado do Plano Global.

Não era uma mensagem que europeus e japoneses queriam ouvir. Na falta de uma alternativa, eles sabiam que suas economias encontrariam um grande obstáculo assim que o dólar começasse a se desvalorizar. Não só seus ativos em dólar perderiam valor, mas as suas exportações também se tornariam mais caras. A única saída para eles seria também desvalorizar suas moedas, mas isto faria com que seus custos de energia subissem rapidamente (dado que o petróleo era comercializado em dólares). Em suma, o Japão e os europeus estavam encurralados.

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Em dezembro de 1971, os presidentes Nixon e Pompidou se reuniram nos Açores. Pompidou, admitindo sua trapalhada com o destróier, implorou a Nixon para reconstituir o sistema de Bretton Woods com base em novas taxas de câmbio fixas que refletiriam as novas “realidades”. Nixon não se abalou. O Plano Global estava morto e enterrado, e uma nova besta incontrolável, o Minotauro Global, viria ocupar seu lugar.

Como as taxas de câmbio fixas do sistema de Bretton Woods entraram em colapso, todos os preços e taxas ficaram descontrolados. O ouro foi o primeiro: saltou de us$ 35 para us$ 38 a onça, em seguida para us$ 42 e depois decolou. Em maio de 1973 foi negociado a mais de us$ 90, e antes do fim da década, em 1979, chegou a fabulosos us$ 455 dólares por onça – um aumento de doze vezes em menos de uma década.

Enquanto isso, passados dois anos da arrojada atitude de Nixon em agosto de 1971, o dólar tinha perdido 30% de seu valor em relação ao marco alemão e 20% em relação ao iene e ao franco. Os produtores de petróleo de repente descobriram que seu ouro negro, quando comercializado em ouro amarelo, valia apenas uma fração do que costumava ser. Os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que regulamentava o preço do combustível através de cortes coordenados na produção, logo foram clamando por uma ação conjunta para aumentar o valor em ouro do líquido negro.

Na época do anúncio de Nixon, o preço do petróleo era menor que us$ 3 por barril. Em 1973, com a Guerra do Yom Kippur entre Israel e seus vizinhos árabes em ritmo acelerado, o preço saltou para us$ 8 e us$ 9, depois pairando em um intervalo de us$ 12 a us$ 15 até 1979. Em 1979, houve um novo surto de aumentos, com o preço do petróleo indo acima de $ 30 pela década de 1980 adentro. E não foi apenas o preço do petróleo que escalou alturas sem precedentes. Todas as commodities primárias subiram de preço simultaneamente: bauxita (165%), chumbo (170%), estanho (220%) e prata (1.065%) são apenas alguns exemplos. Em suma, a rescisão do Plano Global deflagrou um poderoso aumento dos custos de produção em todo o mundo. A inflação subiu, assim como o desemprego – uma rara combinação de estagnação com inflação que chegou a ser conhecida como estagflação.

A explicação convencional para a estagflação dos anos 1970 é que os países da OPEP jogaram o preço em dólar do petróleo nas alturas contra a vontade dos Estados Unidos. É uma explicação que vai contra a lógica e a evidência dos fatos. Porque, se a administração Nixon tinha realmente se oposto ao aumento dos preços do petróleo, como é que vamos explicar o fato de que seus aliados mais próximos – o xá do Irã, o presidente Suharto da Indonésia e o governo venezuelano – não só apoiaram os aumentos, mas lideraram a campanha para que ocorressem? Como é que vamos explicar o abandono administrativo das negociações de Teerã entre as companhias de petróleo (as chamadas “Sete Irmãs”) e a OPEP logo antes do fechamento de um acordo que teria derrubado os preços?

Citando um influente observador americano dessas discussões cruciais, 

“Uma divisão foi anunciada nas conversações em Teerã por um enviado especial dos Estados Unidos, o então subsecretário de Estado John Irwin, acompanhado lá por James Akins, um homem-chave do Departamento de Estado sobre o petróleo […] A verdadeira lição da divisão nas negociações com a OPEP foi que os preços mais elevados não eram terrivelmente preocupantes para os representantes do Departamento de Estado […] o verdadeiro objeto das negociações não era segurar a linha de preço, mas garantir a segurança do fornecimento.”

Isso impõe a seguinte questão: por que os Estados Unidos não se opuseram com qualquer grau de compromisso real aos grandes aumentos nos preços do petróleo? A simples razão é que, assim como a administração Nixon não lamentou o fim de Bretton Woods, também não se preocupou em impedir que a OPEP empurrasse os preços do petróleo para cima. Porque estes aumentos não eram incompatíveis com os planos da própria administração para um aumento substancial nos preços globais de energia e matérias-primas. De fato, os sauditas têm afirmado sistematicamente que Henry Kissinger, mais interessado em gerenciar o fluxo de petrodólares para os Estados Unidos do que impedir o aumento dos preços da energia, incentivou-os o tempo todo a subir o preço do petróleo entre duas ou quatro vezes.45 Enquanto as vendas de petróleo fossem denominadas em dólares, Washington não se oporia aos aumentos dos preços.

Recordando que o novo objetivo era encontrar formas de financiar os déficits gêmeos norte-americanos sem cortar os gastos do governo, ou aumentar impostos, ou reduzir o domínio norte-americano, os estrategistas políticos da Casa Branca entenderam que tinham uma tarefa simples: persuadir o resto do mundo a financiar os déficits de seu país. Mas isso significava uma redistribuição de excedentes globais em favor dos Estados Unidos e às custas das duas zonas econômicas que eles haviam construído em torno da Alemanha e do Japão. Havia dois pré-requisitos para a planejada inversão dos fluxos globais de capital, que iria levá-los para Wall Street com a finalidade de financiar a expansão dos déficits gêmeos americanos: (a) melhoria da competitividade das empresas norte-americanas em relação aos seus concorrentes alemães e japoneses; e (b) taxas de juros que atraíssem grandes fluxos de capital para os Estados Unidos.

O primeiro pré-requisito poderia ser alcançado ou por aumento da produtividade nos Estados Unidos, ou aumentando os custos relativos da concorrência. Por segurança, a administração optou por ambas. Os custos do trabalho foram enxugados com entusiasmo e, ao mesmo tempo, os preços do petróleo foram “encorajados” a subir. A queda nos custos de trabalho dos Estados Unidos não só impulsionou a competitividade das empresas norte-americanas, mas também agiu como um ímã para o capital estrangeiro que estava à procura de empresas rentáveis. Enquanto isso, os preços do petróleo subiam e todas as partes do mundo capitalista foram prejudicadas. No entanto, Japão e Europa Ocidental (em grande parte sem seu próprio petróleo) foram muito mais sobrecarregados do que os Estados Unidos.

Enquanto isso, o aumento dos preços do petróleo levou rendimentos  fabulosos a se acumularem nas contas bancárias da Arábia Saudita à Indonésia, bem como a enormes receitas para as companhias de petróleo norte-americanas. Todos estes petrodólares logo encontraram seu caminho para o seio hospitaleiro de Wall Street. A política de juros do FED se mostraria particularmente útil.

Voltando ao segundo pré-requisito, as taxas de juros monetárias (ou nominais) saltaram de 6%, patamar em que tinham sido deixadas nos anos finais do Plano Global, em 1971, para 6,44 % em 1973 e 7,83% no ano seguinte. Em 1979, a administração do presidente Carter tinha começado a atacar a inflação dos Estados Unidos com confiança. Ele nomeou Paul Volcker como presidente do fed, com instruções para lidar decisivamente com a inflação. Sua primeira ação foi empurrar as taxas de juros médias para 11%.

Em junho de 1981, Volcker aumentou os juros a altíssimos 20%, e depois novamente para 21,5%. Embora sua política monetária brutal tenha amansado a inflação (reduzindo-a de 13,5% em 1981 para 3,2% dois anos mais tarde), seus efeitos nocivos para a acumulação de capital e o emprego foram profundos, tanto nacional como internacionalmente. No entanto, os dois pré-requisitos haviam sido atendidos antes mesmo de Ronald Reagan estabelecer-se na Casa Branca.

Uma nova fase então começou. Os Estados Unidos poderiam agora gerenciar um déficit comercial crescente com impunidade, enquanto a nova administração Reagan também poderia financiar seu orçamento de defesa anabolizado e seus gigantescos cortes de impostos para os norte-americanos mais ricos. A ideologia econômica dos anos 1980, que visava estimular o lado da oferta, o fantasioso efeito trickle-down, os cortes irresponsáveis de impostos, o predomínio da ganância como uma forma de virtude etc., tudo isso era apenas manifestação do novo privilégio exorbitante dos Estados Unidos: a oportunidade de expandir seus déficits gêmeos quase sem limites, cortesia dos fluxos de capital vindos do resto do mundo. A hegemonia norte-americana tinha tomado um novo rumo. Era o amanhecer do reinado do Minotauro Global.

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