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Quem estourou os ataques com armas químicas na Síria?

Patrick Cockburn, veterano jornalista de guerra, levanta as evidências sobre o bombardeio, questiona as certezas e a qualidade das informações. Quais são os custos e os interesses de intervenção militar ocidental nesta fase da guerra?

Por Patrick Cobkrun, The Independent | Tradução Daniel Corral

Cada nova notícia sobre atrocidades cometidas na guerra civil síria provoca uma acalorada discussão sobre a realidade dos fatos. Nos casos em que tais fatos são comprovados, passa-se a discutir sobre quem teria sido o responsável direto por executá-los. A brutalidade implacável de todas as partes do conflito combina-se à um jornalismo partidário e à grande dificuldade de acesso por investigadores independentes, que tornariam possível que dúvidas fossem levantadas até mesmo quanto ao mais flagrante crime de guerra. Via de regra, os soldados de guerra são freqüentemente certeiros sobre os crimes de seus oponentes, enquanto mentem ou silenciam sobre os seus próprios crimes.

Esta regra parece válida no caso do ataque com gás venenoso na cidade de Douma no dia 7 de abril que matou, pelo menos, 34 pessoas. Os militares russos alegam que o ataque foi forjado pelos rebeldes e que as amostras retiradas do local onde os civis foram mortos não eram tóxicas. O governo sírio nega toda e qualquer acusação quanto ao uso de gás.

Livro em que Cockburn conta como surgiu o Estado Islâmico já está na sua 5ª edição.

Mas há cada vez mais evidências trazidas por observadores independentes para confirmar que cloro foi usado no último sábado. A Organização Mundial da Saúde diz que as autoridades sanitárias locais em Douma, com as quais está cooperando, confirmaram ter atendido, no dia do suposto bombardeio, cerca de 500 pacientes apresentando sintomas de exposição a produtos químicos tóxicos. Ela relata ainda que “havia sinais de irritação severa das membranas mucosas, insuficiência respiratória e perturbação do sistema nervoso central nas pessoas expostas”.

Outra evidência quanto ao envenenamento de civis veio à tona: grandes cilindros de gás, como aqueles usados ​​em ataques de gás venenosos anteriores, foram filmados no topo do prédio onde a maioria dos corpos foi encontrada. A população local relata que helicópteros do governo sírio foram vistos na área durante o ataque. Esses helicópteros foram usados ​​em bombardeios de gás de cloro no passado.

Os relatos dos governos russo e sírio sobre o ocorrido, que variam entre dizer que não houve ataque ou que as evidências foram fabricadas, são contraditórios. Um porta-voz da Rússia disse na quarta-feira que o uso de “mísseis inteligentes” contra as forças do governo sírio poderia ser uma tentativa de destruir as provas.

As acusações sobre a fabricação de evidências são generalizadas e inespecíficas, equivalentes a uma teoria da conspiração em que nenhuma prova é produzida, apenas lança-se dúvidas quanto a imparcialidade daqueles que dizem que o cloro foi usado. É verdade que muitas das fontes citadas pela mídia ocidental como se fossem relatos apartidários de testemunhas oculares são na verdade ferrenhos defensores da oposição rebelde. Mas os governos russo e sírio nunca produziram qualquer contra-evidência que desse credibilidade à elaborada trama que seria necessária para se forjar o uso de gás venenoso ou para de fato usá-lo, jogando a culpa no poder aéreo do governo sírio.

A razão mais convincente apresentada por aqueles que defendem que o presidente Bashar al-Assad não realizou o ataque é de que isso iria totalmente de encontro aos seus próprios interesses. Eles já haviam vencido militarmente em Douma e o comboio transportando milhares de combatentes do Exército do Islã e suas famílias já tinha partido para o norte da Síria, controlado pela Turquia. Este último sucesso permite a Assad avistar no horizonte – embora ainda distante – uma vitória completa sobre seus inimigos.

Apesar de todo o furor causado pela proposta de um ataque ocidental contra as forças sírias, é difícil ver o que isso poderia assegurar — além de servir como um vago sinal de desaprovação internacional ao uso de armas químicas. Os falcões nos EUA e na Europa podem querer aproveitar a ocasião para reabrir as portas para uma intervenção armada na guerra civil da Síria com o objetivo de enfraquecer ou depor Assad, mas o momento para isso já passou faz tempo, se é que um dia existiu.

Existe um mito amplamente difundido de que os ataques aéreos dos EUA contra as forças do governo sírio em 2013, que o presidente Barack Obama é constantemente acusado por não ter levado a cabo, teriam levado a guerra a um desfecho diferente e mais feliz. Mas os ataques aéreos só teriam sido eficazes se tivessem sido realizados em escala maciça, e diariamente, em apoio à tropas terrestres. Estas poderiam ser as forças de rebeldes sunitas armados, que já haviam sido dominadas por movimentos do tipo al-Qaeda, ou o próprio exército estadunidense, como uma reprise da Guerra do Iraque de 2003.

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